terça-feira, 31 de janeiro de 2017





Aeroporto de Heathrow. Londres. Após três dias de caminhadas, exaustas, sem dormir, tendo o transfer nos pego às três horas no Royal National Hotel, chegamos no aeroporto e deparamos com fileiras de pessoas dormindo no piso, esperando a abertura do check-in. Despachamos nossa bagagem e fomos para a sala de embarque, com várias fileiras de poltronas azuis. Sentamos na primeira fileira e esperamos. De repente, digo para minha amiga: - Já não seria hora de embarcar? Olhamos em volta e não havia mais ninguém. Ela olha o painel, procura o voo e o portão de embarque.
Disparamos a correr. Por sorte, havia esteiras rolantes ligadas e corremos em cima das esteiras. Chegando quase ao portão, passa uma moça por nós em disparada. Dobramos num corredor com indicação do número do portão e chegamos ao nariz do avião. Voltamos, entramos no próximo corredor e chegamos à porta do avião. A comissária de bordo nos cumprimenta, entramos e a porta se fecha. Um voo que chegaria atrasado em duas horas a Lisboa, mas se fôssemos nós a perdê-lo, perderíamos toda a passagem de volta.

Veneza. A moça olha minha bagagem: uma bolsa de rodinhas, uma bolsa tiracolo e uma sacola com uma máscara veneziana com um largo chapéu, muito leve, mas espalhafatosamente grande. 
- 37 euros - diz ela. Como? Sim, 37 euros ou tudo colocado em um só volume. 
Peço minha passagem de volta.
Minha amiga tinha, além da mala de mão, apenas uma bolsinha minúscula de camurça e lhe foi cobrado o mesmo valor.
Há uns largos pilares nesta área. Percebi que pessoas passavam direto para as bandejas com valises estufadas, com fechos abertos de tão cheias. Vamos para trás dos pilares e, como éramos três, voltamos uma de cada vez para despachar a maleta. A moça pergunta: - E o resto da bagagem? Tudo aí dentro - respondo. Volto, pego minha bolsa e minha espalhafatosa e leve sacola e vamos para o embarque. Porém, todo esse processo nos roubou tempo e tivemos que correr. 
Minhas amigas afoitas sobem uma escada. Um senhor sai de uma loja e começa a gesticular aflito. Entendo. Grito para elas que voltem. Ele nos indica um corredor e chegamos às bandejas. Rápido nos indicam a direção. Novamente piso no avião e a porta se fecha. 
      
               Minha máscara veneziana repousa linda e salva na parede do meu quarto de costura.



Lisboa. Chegamos em meio à tarde ao aeroporto. Uma antecipação de mais de três horas. Sentamos e ficamos conversando. Minha amiga diz que vai procurar o check-in. Parte com o carrinho com sua bagagem. Vamos atrás dela, mas nos perdemos. Lá pelas tantas, a vemos vindo em nossa direção.
- Vocês não vão acreditar - diz - nosso voo já saiu.
Procuramos o balcão da TAP e nos informam que só teriam lugares disponíveis para dois dias depois e teríamos que pagar 430 euros. Nos dão uma sugestão. Irmos de trem até Madri e lá pegarmos outro trem para Paris. Levaríamos dois dias, mas talvez fosse mais barato. Resolvemos pagar os 430 euros e voltar para nosso hotel em Lisboa. Se tivéssemos seguido a sugestão deles, teríamos perdido toda a nossa passagem a partir dali. Até hoje me espanto como funcionários de aeroporto não sabem desse cancelamento se alguma conexão for perdida.



O que é possível dizer sobre isso tudo? Que é preciso viajar com espírito aberto para o que der e vier. Planejar exaustivamente cada passo, mas suportar os imprevistos. Minhas amigas e eu dizemos quando algo dá errado: "Vai para o saco de recordações". E assim é. O planejamento seguro é ótimo, mas são os imprevistos que dão uma pitada a mais de sabor, um riso a mais ao recordar. Para isso é necessário que todo o grupo mantenha o mesmo espírito de viajante, de gosto pela descoberta, de aceitação das falhas. O que falhou? O excesso de bagagem, a perda do voo, os passeios programados que não foram feitos por terem sido trocados por outros que se revelaram uma desilusão, as pessoas irritadas e mal educadas nos aeroportos e outras coisinhas que ainda vou contar.









domingo, 22 de janeiro de 2017





Londres. Royal National Hotel. Pior café de todos os que tomei em hotéis. Um local horrível e lotado, leite frio, café frio, fatias de pão branco, tabletes de geleia ou margarina. Se quisesse mais, teria que pagar £ 4.50. Os americanos se lambuzavam de bacon e ovos fritos. Pegávamos nossos tabletes de margarina e geleia e íamos tomar café no quarto, onde tinha uma jarra elétrica. Depois descíamos para o mercadinho 24 horas ao lado do hotel e comprávamos três grandes e deliciosos croissants por £ 1,00.

Chile, Santiago. Hotel central, quase na esquina do calçadão. Uma escadaria de mármore. Em todos os andares, um vitral arredondado e da dimensão da parede acompanhava a escada, diferente em cada andar. Deixei o elevador e subi pelas escadas até o último andar só para apreciar os vitrais. Valeu a pena.
No café, uma mulher, talvez proprietária, se colocava ao lado da mesa com as jarras de leite e café e perguntava, com um frasco de adoçante na mão:  Quantas gotas? Só tinha bolinhos e pães doces e eu não como doce no café da manhã.

Buenos Aires. Hotel Esmeralda. Desço para o café e peço para deixar minha bolsa na mesa de duas companheiras de viagem, enquanto sirvo o café e os doces, sempre os doces.Minha bolsa é enorme, com todos os itens e lanchinhos para o passeio que íamos fazer. Estamos em excursão. Tem que ser tudo rápido. Volto para a mesa, tomo um gole de café e a pessoa com quem havia deixado meus pertences, solta um grito: - Minha bolsa! Minha bolsa! Levaram minha bolsa! Ela carregava uma bolsinha minúscula. A minha tinha ficado por ser enorme. Havia duas mulheres ao fundo que já não estavam. Na portaria do hotel, souberam que nem eram hóspedes. Ao menos não tinham levado todo o dinheiro, pois uma parte ficara no quarto. Mas os documentos, estes se foram. E ela ainda teve que pagar propina na aduana para poder sair do país.

Buenos Aires. Hotel Conde, a uma quadra do Obelisco. Na véspera, tínhamos ido a boate Saara e retornamos às quatro da madrugada. Ficamos num local escuro e lotado, vendo um baiano de sunga se contorcer numa espécie de ringue no centro do salão e cantar axé. Na capital do tango! Minha amiga foi dançar. Eu me empoleirei num balcão ao lado de umas brasileiras que me deram uns goles de Daikiri Tropical. Muito gostoso. Cedo tivemos que colocar as malas no ônibus e voltamos a dormir. Desço para o café. Minha amiga fica se arrumando. Salão grande,na esquina, grandes janelas. A primeira vez na viagem que vejo frutas no café da manhã. Pego duas frutas, sento e como-as. Levanto-me e viro em direção à mesa para buscar café e pão, bolo, croissant, queijo, presunto e...o quê? Estava absolutamente vazio. Nada. Nadinha. Pergunto para a moça. Ela me mostra o relógio. Dez horas. Recolhiam às dez em ponto.
- Posso lhe arrumar uma xícara de café - disse.
Minha amiga chega. Peço que arrume uma xícara para ela também. Um café preto. Mais nada.
Eis que aprendi a colocar todos os pratinhos na mesa antes de iniciar o café.

MacDonald Hotel. Londres. A uma quadra da Saint Pancras Station. Hotelzinho pequeno, familiar, barato, escolhido para ir caminhando com a malinha de mão. Londres com malas nunca mais. Ficamos no único quarto no subsolo e o banheiro no corredor era só nosso. No quarto, jarra térmica, chás, pacotinhos de bolacha, açúcar, adoçante. Um lance de quatro degraus para o café da manhã numa salinha de uns quatro metros por quatro. Café com leite, pão, geleia, manteiga, queijo, presunto, bacon. A salinha de entrada é feia, mas os proprietários são de um calor humano que a gente esquece. Tentei reservar de outra vez esse hotelzinho, mas estava lotado. 

Sphink Hotel. Amsterdam. Um susto. Reservei e depois fui ler as avaliações. As piores possíveis. Na verdade, os lençóis eram branquíssimos, assim como as fronhas e os edredons. Os proprietários eram chineses. Era um hostel. Tínhamos que preparar nossos cafés num canto meio obscuro do saguão. As escadas pareciam terem sido construídas num túnel estreito, completamente retas. Jogava minha bolsa para as costas e ia me alçando segura nos dois corrimões. Na descida, era segurar e deslizar quatro andares até o térreo. Levamos um dia andando para achar o Sphink para constatar que o metrô que passava a todo instante na Centraal Station fazia a volta na esquina do hotel.
Na véspera do retorno, comprei uns pãezinhos num mercadinho de produtos naturais caríssimos. Vieram num saco de papel e guardei-os na sacola,  no espaço entre as camas e a janela. Na metade da viagem, peguei o suco e me preparei para saborear o lanche, meto a mão na sacola, pego o saquinho de papel e - susto - o saco e o pão tinham sido roídos por rato.Ainda bem que o bicho tinha conseguido sair! Chegamos a Paris às onze da noite...com fome. 
                                          
                                                                Janela do quarto

                                                                         Escadas



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017





Segunda entrada na Europa. Aeroporto de Lisboa. Saímos do avião, seguimos caminhando, recolhemos as bagagens, fomos andando e, de repente, me dei conta: - E as bandejas? 
Nada. Nem bandejas, nem gritos, nem caras feias. Deslizamos para a saída e para o sol. 

Nunca mais, até 2015, houve sufoco em entradas ou saídas na Europa. Era como se estivéssemos entrando em um shopping na minha cidade. 

Da primeira vez, no entanto, foi tudo terrível. Se eu não tivesse voltado, ficaria para sempre com uma péssima impressão daquele povo. E agora como será, quando nosso país mergulha de novo no caos?

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Quando cheguei ao balcão da TAP, disse que não queria aquele voo que nos foi dado e, sim, o que havia adquirido, que era direto para Porto Alegre. A moça disse que só tinha o mesmo voo na sexta-feira e era recém segunda, mas que as despesas nos dias restantes teriam que ser por nossa conta. 

Não conhecer a cidade é um problema. Tinha ficado três dias em Lisboa na ida, mas nada sabia e me assustei um pouco com a ideia de bancar quatro dias mais. Minha amiga estava aborrecida desde a véspera porque havia prometido ao diretor da escola que voltaria naquela data. Minha família me disse ao telefone que eu ficasse e aproveitasse, já que estava lá e havia essa possibilidade. 

Passei no balcão e disse para a funcionária que guardasse as passagens que eu iria entrar na fila desta vez. Descemos, procuramos no balcão de turismo uma pensão mais em conta, pois o hotel em que estivemos hospedadas ao chegar era caríssimo, cinco estrelas. 

Voltamos para a fila e aí entrou a turma do deixa-disso. Começaram a dizer: - Ah, mas vocês deveriam ir hoje, porque já estariam no Brasil  (não sei qual era a vantagem). Minha amiga, que já não estava com vontade de ficar, desistiu de vez e fomos embora recolher nossa bagagem no hotel. Péssima decisão. 

O almoço da TAP à escolha, até vinte euros. Comi bacalhau com nata, sobremesa e peguei uma latinha de refri, que levei metade para minha amiga, que ficara no portão de embarque cuidando nossa bagagem de mão. Na vez dela almoçar, ela foi sozinha, é claro. Aborrecida, o que fez? Pegou três pequenos bolinhos de bacalhau e mais nada. O rapaz insistiu que ela pegasse mais alguma coisa, mas não adiantou. E lá deixou uns quinze euros pra TAP. Poderia ao menos ter pego seis bolinhos e me dado três. Ora, pois, pois...

No voo, ainda dei azar. O cardápio era bacalhau ou cordeiro estufado. Escolhi bacalhau. Serviram o lado de minha amiga e ela pegou bacalhau. Quando chegou do meu lado, o bacalhau tinha terminado e eu tive que ficar com o tal cordeiro estufado, que até hoje não sei bem o que é.

 Voo chatíssimo. Todas as janelinhas abertas e o sol atravessando de um lado a outro. Seis horas intermináveis. Vi três filmes. Lá pelas tantas não conseguia respirar. Fui ficando aflita. Não chegava nunca. Nos colocaram nos últimos assentos com um barulho de motor que incomodava. E tudo incomodava. Chegamos às sete horas e teríamos que esperar o voo para São Paulo até às três da madrugada. Fome. Fui comprar uma torrada e o rapaz avisou: - É muito cara! Será que eu já estava tão desmontada, que parecia não ter dinheiro para uma torrada?

Como se isso fosse pouco, ainda tivemos que pegar nossas malas e passar pela revista. Uma fila enorme. Uma mulher vomitando. O marido gritando que sua mulher passava mal e ninguém se importava, tinham que ficar na fila. Eu lembrei que tinha um croissant na bolsa e fiquei com medo. Depois de ser tratada como criminosa na chegada a Lisboa, temia ser encarcerada por um croissant.
Vi um banheiro ao lado da fila, entrei lá ligeiro e larguei o pacote. 

Quando chegou nossa vez, mandaram abrir a mala vermelha. O cadeado emperrou. O fiscal, um homem grande e moreno, mas infinitamente gentil, perguntou se podia tentar abrir. Dei-lhe a chave e ele conseguiu. Eu olhei e exclamei: - Minha roupa suja! Foi a deixa para que ele não mexesse em nada. Fechou a mala e nós já íamos saindo, quando um outro começou a gritar que tinha lata na mala que minha amiga passava para mim. Eu dizia que não, mas eles insistiam. Pediu a chave e eu alcancei. Ele perguntou, desconfiado: - A mala é de sua amiga e você é que tem a chave? 
Abri, ele olhou. Só roupas. Nesse momento, na mala da mulher que vinha depois, eles retiraram uma enfiada de queijinhos. Voltaram-se todos para a criminosa e nós fomos deixadas em paz. 
Em casa, ao retirar as roupas, descobri que o que acusava ser uma lata, era a corrente que havíamos levado para acorrentar as malas na viagem de trem Paris-Londres e que se encontrava no fundo de um bolso interno e nem havia sido usada.

Depois de todas essas, dormia profundamente no voo para São Paulo e sou acordada por uma japonesinha irritada, indagando: - Suco ou água? 
E eu: - Café!

Não. Não tinha café. Me deu um suco horrível e um pacotinho de bolachas que colavam nos dentes e não pude comer. 

Eu só queria dormir.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017






Quando entrei na Europa pela primeira vez, em Lisboa, repetiu-se o que sempre era narrado por outros brasileiros. Estupidez, dificuldades, gritos. Fiquei com a impressão de que isso era praxe e que sempre seria assim. 
Extraordinariamente, quando voltei nas outras vezes, em governos de PT, pouco faltou para que nos estendessem tapete vermelho. Foi algo muito e muito visível essa diferença no tratamento. O Brasil estava bem. A Espanha, de onde eram escandalosamente repatriados brasileiros de forma sistemática, essa Espanha estava pedindo ao governo brasileiro que acolhesse os espanhóis que aqui procurassem trabalho. Pena que todos os brasileiros não tenham essa possibilidade de comparação e tenham ajudado a trocar o governo por uma máfia.

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Lisboa, chegada. Passagem de bolsa e malas de mão pelas bandejas. Um funcionário grita, enfia a mão na minha bolsa, escarafuncha, berra: - Onde está o porta-dólares? 
Abro o casaco para tirar a bolsinha que trazia presa ao ombro. Ele berra impaciente - Não sei por que carregam isso! - reclamando por eu trazer o dinheiro junto ao corpo.
Depois de ter sonhado e planejado por décadas a viagem, engoli os desaforos, que eram só uma amostra do que ainda veria.
No retorno, nosso avião não pode aterrissar por causa da cerração e ficou sobrevoando até ser obrigado a ir a Faro abastecer e voltar. Com isso, chegamos com duas horas de atraso.
Desembarcamos e passamos novamente pelas esteiras. Tira casaco, abre bolsa, expõe líquidos, deposita na bandeja brincos, relógios, moedas. Algumas mulheres e crianças calçavam botas e tiveram que tirá-las e enfiar os pés em sacos plásticos. Isso superado, deitamos a correr até o portão de embarque para chegar lá e vê-lo fechado. Uma quantidade de pessoas desorientadas  ficou se olhando sem saber o que fazer. Um dos brasileiros voltou ao início daquele caminho e depois reapareceu com a notícia de que alguém da TAP queria nos comunicar algo. 
Refizemos a caminhada, até que um do grupo disse: - Esperem! Se um homem quer falar com o grupo, não é mais lógico que ele venha até aqui do que fazer todo esse pessoal ir até lá?
Que nada! Nós é que éramos uns pobres cucarachas e tínhamos mais é que nos ajoelharmos diante dos todos poderosos europeus.
Para chegarmos até o homem que queria nos dizer algo, tivemos que passar pelas bandejas novamente com todo seu ritual, já nessa altura, humilhante. Ora, se havíamos passado por isso em Londres, se passamos novamente nesse aeroporto de Lisboa ao chegar, o que de tão irregular teríamos adquirido dentro do aeroporto para sermos revistados novamente, expor o conteúdo das bolsas nas bandejas e mulheres e crianças tirarem as botas e colocarem sacos plásticos nos pés para serem admitidas na "saída"? 
Tivemos que nos enfileirar e apresentar passaportes nos guichês e fomos recebidos com uma observação sarcásticas: - Ah! É o grupo que perdeu o voo! - disse a mulher com maus modos. Foi a segunda funcionária na mesma manhã a nos tratar mal. Na saída de Londres, ao perguntar para uma delas para onde deveríamos nos dirigir, ela sacudiu os ombros, expressando o que eu já entendia por "Cucarachas, virem-se!" 
O homenzinho nos recebeu num corredor. Alguém começou a filmar e ele berrou: - Podem filmar à vontade! Não tenho medo!
Outros começaram a jogar malas no chão.
Ele disse: - O que tenho para oferecer a vocês é um hotel. Depois um funcionário vai procurá-los com uma solução. Quem quiser ir, que vá; quem não quiser, que fique. 
Fui, é claro.Mas alguns ficaram.
Fomos levados a um hotel Marriott. Escadas de mármore, veludos e pianos, várias salas para refeições, comida ótima, vinho à vontade. Mas não tinha internet. Só pagando. No jantar, já não tinha mais direito a vinho.

                                                                  Hotel Marriott 





                                                    Ficamos num quarto igual a este.




















Só que esse hotel ficava perto do aeroporto e no meio do nada. Quando consegui convencer minha amiga a sair, o taxista nos disse que não havia onde ir num domingo à noite. Agora eu sei o quanto a cidade é cheia de vida nos domingos à noite. Eu já tinha lido sobre isso, mas não me animei a contestar um taxista e fomos dormir. Depois fiquei sabendo que estávamos a dois passos do Shopping Colombo, que só fui conheceer na terceira vez que estive em Lisboa.


Nos deram cartão para um telefonema para o Brasil.
À noite, um funcionário apareceu com uma folha de caderno com uns rabiscos e foi chamando para revelar o destino. Alguns já haviam comentado que eles iam começar a enfiar uns aqui, outros ali, em voos pingados.
Dois rapazes que vinham da Alemanha, voltaram sorridentes:- Vamos amanhã direto para Porto Alegre.
Ficamos esperançadas, eu e minha amiga, mas qual! A nós o sujeito disse que estaríamos num voo para Natal na tarde do dia seguinte.
Passei a noite cismando que eles nos mandavam para Natal e de lá nós teríamos que nos virar. Com isso, madruguei, acordei minha amiga e fomos para o aeroporto depois do café, este horrível, numa sala com enormes mesas com tampos de mármore e cadeiras estofadas de veludo vermelho. Tudo doce e não como doce no café da manhã.




 Aeroporto. Uma fila para o balcão de atendimento da TAP. Uma longa espera.
Quando chegamos ao balcão, a portuguesa disse: - Vocês não sabem seu destino, mas nós sabemos.
Nos entregou a passagem e disse que teríamos que deixar o hotel ao meio dia.
Nos afastamos e me lembrei que o almoço era servido ao meio dia e meia. Voltei e pedi a ela o cartão para almoço no aeroporto. Entreguei minha passagem e ela disse que teria que ter a de minha amiga também.
Parti atrás dela, que já estava um lance abaixo, em direção à saída. Peguei a passagem e voltei, entrando direto para o balcão.
Da fila, um casal de -supostamente - alemães, começou a gritar: -Here! Here!
Apontavam para a fila.
Eu gritei: - Não! Já estive aí por horas. Já fui atendida e não vou voltar. Tenho direito a ficar aqui.
Fiquei repetindo um pouco em português, um pouco em inglês.
Eles gritavam, eu gritava, o pessoal da fila, todos brasileiros, gritavam: - Fica! Fica!
Eu fiquei. Eles chamaram um segurança, um sujeito enorme. Ele parou a meu lado sem entender o que estava acontecendo.
Nesse momento, uma loura alta entra também pelo lado oposto à fila e chega no balcão. Ela estava muito irritada e há dias com um problema de bagagem. O homem me deixou ali e foi argumentar com a loura que não era possível chegar ao atendimento daquele jeito.
Eis que a pessoa que estava sendo atendida, se afasta. Seria minha vez. Seria. O casal sai da fila e se posta um de cada lado da minha pessoa pequenininha e começa a me apertar para me impedir de avançar.
A atendente e eles começam a falar em inglês de uma forma alterada, que nem tentei entender e eis que ela lhes permite me empurrarem e passarem na minha frente e os atende.
Nunca vou esquecer daqueles dois, grandes, louros, estúpidos e idosos, numa idade em que já deveriam ter aprendido a ter educação.
A funcionária deveria ter-lhes dito que já estava me atendendo, mas foi conivente com a maldade deles.
Valeu a torcida dos brasileiros.
E, afinal, o almoço também valeu.

Antes de sair, um funcionário adverte:- Venham cedo, pois terão mais de vinte minutos de caminhada até o portão.
Na véspera ninguém teve dó dessa caminhada.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017






Três dias em Londres. e nos perdemos três vezes. Cidade enorme. 
O National Hotel já é tão grande quanto uma cidade. Andares, corredores, vários elevadores. Mais ou menos seis em cada bloco. Corredores a perder de vista. À noite as portas eram fechadas e os corredores pareciam menores. Tivemos a sorte de ficar no sexto andar, num quarto de frente, bem na esquina. Não sei se seria sempre assim, mas os carros de polícia passavam ao longo da avenida,de dez em dez minutos, com a sirene aberta. 

                                                      Vista da janela do quarto



 Fiquei um bom tempo observando esse homem trabalhar sem nenhum equipamento de segurança na altura do quinto andar. Ele subia e descia do banquinho e ia colocando esses ferros atravessados sobre os outros dois longos. Nessa foto, ele está com um pé no banquinho e outro no ferro, completamente solto.


Na primeira noite, nos orientamos até excepcionalmente bem. Saímos a caminhar e, de repente, deparamos com as luzes do London Eye e ao dobrarmos a esquina eis que vi, através do vidros de um restaurante, os enormes cartazes do Lion King, cujos ingressos eu comprara pela internet. 


Na segunda noite, saímos com alguma antecedência para chegar ao Lyceum Theatre. Decoramos direitinho o caminho. Dobrar na esquina da loja que tinha umas pedras, andar...quantas quadras mesmo? Andamos e lá pelas tantas achei que estávamos perdidas. Pedi orientação a uma moça e ela explicou que já havíamos passado, que devíamos retornar. Retornamos umas duas quadras. Desconfiei que algo não estava bem e pedi informações a um grupo. Eles nos mandaram de volta ao ponto em que estávamos. A moça nos havia informado tudo errado. 
Enfim no teatro, estranhei que o pessoal saía de uma porta ao lado com as mãos cheias de pacotes de pipoca, refris e lanches. Lá eles comem no teatro! Ao menos em peças infantis, pois nos outros não vi isso. 
Sentamos na última fila da plateia. Atrás e ao lado estavam adolescentes com seus professores. Um professor sentado na frente da minha amiga e outro fechando o cerco no fim da fileira em que estávamos. Na minha frente, três meninas adolescentes que não pararam um minuto de cochichar e rir e sentar acocoradas nas poltronas. Os meninos a meu lado não incomodaram em nenhum momento. 
A peça é fantástica. Luzes, música, cenários, tudo lindo. Lá pelas tantas, as portas atrás de nós se abrem e entram pelo corredor, elefantes e girafas (armação de pano, é claro) e se encaminham lentamente para o palco. Fantástico!
Mas lá como cá, professores não conseguem manter adolescentes quietos. 













Sair de Paris para Londres pode ser fácil quando se tem passagem de ida e volta. Não me lembro de ter tido problemas na segunda vez que fiz isso, mas dessa primeira foi horrível. Apresentar passaporte, ser olhada com desconfiança, responder a um funcionário com um inglês terrível que pedia insistentemente nossas passagens de volta, até mostrarmos nossas passagens de avião para o embarque no aeroporto de Heathrow e a nossa fila parada, com todos nos olhando já com ódio. 

            Gare du Nord - entrada - Logo à esquerda fica o elevador para quem parte para Londres.


Ultrapassado esse obstáculo, toca a empurrar malas por um longo corredor até uma porta numerada. 
E aí tchantchantchan...deparamos com uma esteira quase reta para a plataforma. Coloquei uma mala na frente e puxei a outra e fui descendo. Eis que minha mala mais pesada tomba e fica lá em cima, enquanto eu ia ladeira abaixo literalmente. Minha amiga, que ainda estava esperando para descer me grita, perguntando o que fazer. Eu gritei: - Empurra!  E ela o fez. A mala veio com tudo e me bateu nas pernas mais ou menos na metade da descida e eu fui até a plataforma empurrando uma e sendo empurrada por outra. 

 Plataformas da Gare du Nord - Pela esteira se desce diretamente na plataforma do trem para Londres.


                                             O interior de um trem Paris-Londres é assim.                 


Quando conseguimos nos reunir na plataforma, eis que os vagões são enfileirados do número maior ao menor na saída, o que ocasiona que chegará em Londres o 1, é claro, em primeiro lugar. O nosso, por ter comprado a passagem com muita antecedência pela internet, era um dos primeiros, alguma coisa como umas três quadras para correr já em cima da hora com malas que se viravam e reviravam todo o tempo.

Às vezes, anjos caem do céu e a gente nem sabe reconhecê-los, pois tomam formas humanas. Nas portas dos vagões, havia mocinhas conferindo as passagens. Em nosso vagão, quando chegamos exaustas, acaloradas, despenteadas, havia naquele - e só naquele - dois rapagões sorridentes e prestimosos que passaram as mãos em nossa bagagem e ajeitaram-na no compartimento próprio, enquanto nós fomos ligeiras nos sentar.
Viagem tranquila. Trem deslizando. Nem pensei que estava passando pela primeira vez pelo túnel debaixo d'água. Ao fim de duas horas e meia, estávamos em Londres e fomos recolher nossas famigeradas malas.

                                                         Saint -Pancras - Soberba






                Escultura que mais chama a atenção, assim que se chega a Saint-Pancras.





Mas como tudo que é complicado, pode se complicar um pouco mais, os anjos - que talvez não fossem muito conhecedores da falta de força das mulheres na Terra - tinham colocado nossas malas no compartimento mais alto, bem acima de nossas cabeças. Se conseguíssemos puxá-las, elas nos cairiam por cima e poderiam, com seu peso, até nos quebrar o pescoço. Ficamos desoladas a olhar para o alto e nos foi enviado outro anjo, por pura comoção dos céus. Um passageiro, que viajava com a família, viu nossa aflição, retirou nossas malas e depositou-as na plataforma.

                                               Compartimento de bagagens nos trens.



Eu disse para minha amiga que, nesta plataforma, não iríamos passar o mesmo desatino que passamos na partida e fui procurar um carrinho de transportar malas.
Andei, andei, andei e quando afinal encontrei um, vi que a moeda teria que ser de um euro e percebi que eu só tinha moeda de dois euros. Voltei, voltei, voltei e pedi a moeda a minha amiga.
Andei, andei, andei de novo. O carrinho ainda estava lá, mas não consegui destravá-lo. Nisso ia passando um funcionário e eu o chamei. Ele também não conseguiu destravar. A moeda ia e caia e ia e caia, até que o homem sacudiu a bandeja superior e percebeu que o carrinho nunca estivera travado. Me devolveu a moeda e lá fui eu de volta para empoleirar nossas malas e maletas.
Todos desciam pela esteira lá também, mas o guarda ao olhar nosso vexatório transporte, nos apontou para um elevador enorme. Anjos por toda parte?



Na saída da Saint Pancras, olhei o tamanhinho dos táxis e fiz sinal que não, que queríamos outro. Havia um senhor, não sei se era um carregador, que ficava orientando essa saída. Ele riu e abriu a porta do carro. 
Há um filme que é sátira dos filmes de Mel Gibson, Máquina Quase Mortífera,  em que o cara entra num trailer na praia e dentro se depara com um palácio com escadarias e colunas altíssimas. Pois é. O táxi era assim. Aquele veículo pequenininho, quadradinho, tinha espaço para toda a bagagem, nós duas e sobraria para mais a torcida do Internacional, ou metade do Rio Grande do Sul. Os táxis em Londres tem um painel de vidro separando os passageiros do motorista, atrás dele tem um banquinho que é dobrável e que, uma vez recolhido, dá  algo como uma sala para a acomodação das tralhas. Do lado oposto tem outro banco onde nos sentamos.
Pagamos uma fortuna para andar qualquer coisa como três quadras até o National  Hotel. 
Pode crer que aprendi essa lição muito bem. Saída por Londres, jamais!

                                                        Levando apenas o essencial.