Segunda entrada na Europa. Aeroporto de Lisboa. Saímos do avião, seguimos caminhando, recolhemos as bagagens, fomos andando e, de repente, me dei conta: - E as bandejas?
Nada. Nem bandejas, nem gritos, nem caras feias. Deslizamos para a saída e para o sol.
Nunca mais, até 2015, houve sufoco em entradas ou saídas na Europa. Era como se estivéssemos entrando em um shopping na minha cidade.
Da primeira vez, no entanto, foi tudo terrível. Se eu não tivesse voltado, ficaria para sempre com uma péssima impressão daquele povo. E agora como será, quando nosso país mergulha de novo no caos?
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Quando cheguei ao balcão da TAP, disse que não queria aquele voo que nos foi dado e, sim, o que havia adquirido, que era direto para Porto Alegre. A moça disse que só tinha o mesmo voo na sexta-feira e era recém segunda, mas que as despesas nos dias restantes teriam que ser por nossa conta.
Não conhecer a cidade é um problema. Tinha ficado três dias em Lisboa na ida, mas nada sabia e me assustei um pouco com a ideia de bancar quatro dias mais. Minha amiga estava aborrecida desde a véspera porque havia prometido ao diretor da escola que voltaria naquela data. Minha família me disse ao telefone que eu ficasse e aproveitasse, já que estava lá e havia essa possibilidade.
Passei no balcão e disse para a funcionária que guardasse as passagens que eu iria entrar na fila desta vez. Descemos, procuramos no balcão de turismo uma pensão mais em conta, pois o hotel em que estivemos hospedadas ao chegar era caríssimo, cinco estrelas.
Voltamos para a fila e aí entrou a turma do deixa-disso. Começaram a dizer: - Ah, mas vocês deveriam ir hoje, porque já estariam no Brasil (não sei qual era a vantagem). Minha amiga, que já não estava com vontade de ficar, desistiu de vez e fomos embora recolher nossa bagagem no hotel. Péssima decisão.
O almoço da TAP à escolha, até vinte euros. Comi bacalhau com nata, sobremesa e peguei uma latinha de refri, que levei metade para minha amiga, que ficara no portão de embarque cuidando nossa bagagem de mão. Na vez dela almoçar, ela foi sozinha, é claro. Aborrecida, o que fez? Pegou três pequenos bolinhos de bacalhau e mais nada. O rapaz insistiu que ela pegasse mais alguma coisa, mas não adiantou. E lá deixou uns quinze euros pra TAP. Poderia ao menos ter pego seis bolinhos e me dado três. Ora, pois, pois...
No voo, ainda dei azar. O cardápio era bacalhau ou cordeiro estufado. Escolhi bacalhau. Serviram o lado de minha amiga e ela pegou bacalhau. Quando chegou do meu lado, o bacalhau tinha terminado e eu tive que ficar com o tal cordeiro estufado, que até hoje não sei bem o que é.
Voo chatíssimo. Todas as janelinhas abertas e o sol atravessando de um lado a outro. Seis horas intermináveis. Vi três filmes. Lá pelas tantas não conseguia respirar. Fui ficando aflita. Não chegava nunca. Nos colocaram nos últimos assentos com um barulho de motor que incomodava. E tudo incomodava. Chegamos às sete horas e teríamos que esperar o voo para São Paulo até às três da madrugada. Fome. Fui comprar uma torrada e o rapaz avisou: - É muito cara! Será que eu já estava tão desmontada, que parecia não ter dinheiro para uma torrada?
Como se isso fosse pouco, ainda tivemos que pegar nossas malas e passar pela revista. Uma fila enorme. Uma mulher vomitando. O marido gritando que sua mulher passava mal e ninguém se importava, tinham que ficar na fila. Eu lembrei que tinha um croissant na bolsa e fiquei com medo. Depois de ser tratada como criminosa na chegada a Lisboa, temia ser encarcerada por um croissant.
Vi um banheiro ao lado da fila, entrei lá ligeiro e larguei o pacote.
Quando chegou nossa vez, mandaram abrir a mala vermelha. O cadeado emperrou. O fiscal, um homem grande e moreno, mas infinitamente gentil, perguntou se podia tentar abrir. Dei-lhe a chave e ele conseguiu. Eu olhei e exclamei: - Minha roupa suja! Foi a deixa para que ele não mexesse em nada. Fechou a mala e nós já íamos saindo, quando um outro começou a gritar que tinha lata na mala que minha amiga passava para mim. Eu dizia que não, mas eles insistiam. Pediu a chave e eu alcancei. Ele perguntou, desconfiado: - A mala é de sua amiga e você é que tem a chave?
Abri, ele olhou. Só roupas. Nesse momento, na mala da mulher que vinha depois, eles retiraram uma enfiada de queijinhos. Voltaram-se todos para a criminosa e nós fomos deixadas em paz.
Em casa, ao retirar as roupas, descobri que o que acusava ser uma lata, era a corrente que havíamos levado para acorrentar as malas na viagem de trem Paris-Londres e que se encontrava no fundo de um bolso interno e nem havia sido usada.
Depois de todas essas, dormia profundamente no voo para São Paulo e sou acordada por uma japonesinha irritada, indagando: - Suco ou água?
E eu: - Café!
Não. Não tinha café. Me deu um suco horrível e um pacotinho de bolachas que colavam nos dentes e não pude comer.
Eu só queria dormir.
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