terça-feira, 3 de janeiro de 2017






Sair de Paris para Londres pode ser fácil quando se tem passagem de ida e volta. Não me lembro de ter tido problemas na segunda vez que fiz isso, mas dessa primeira foi horrível. Apresentar passaporte, ser olhada com desconfiança, responder a um funcionário com um inglês terrível que pedia insistentemente nossas passagens de volta, até mostrarmos nossas passagens de avião para o embarque no aeroporto de Heathrow e a nossa fila parada, com todos nos olhando já com ódio. 

            Gare du Nord - entrada - Logo à esquerda fica o elevador para quem parte para Londres.


Ultrapassado esse obstáculo, toca a empurrar malas por um longo corredor até uma porta numerada. 
E aí tchantchantchan...deparamos com uma esteira quase reta para a plataforma. Coloquei uma mala na frente e puxei a outra e fui descendo. Eis que minha mala mais pesada tomba e fica lá em cima, enquanto eu ia ladeira abaixo literalmente. Minha amiga, que ainda estava esperando para descer me grita, perguntando o que fazer. Eu gritei: - Empurra!  E ela o fez. A mala veio com tudo e me bateu nas pernas mais ou menos na metade da descida e eu fui até a plataforma empurrando uma e sendo empurrada por outra. 

 Plataformas da Gare du Nord - Pela esteira se desce diretamente na plataforma do trem para Londres.


                                             O interior de um trem Paris-Londres é assim.                 


Quando conseguimos nos reunir na plataforma, eis que os vagões são enfileirados do número maior ao menor na saída, o que ocasiona que chegará em Londres o 1, é claro, em primeiro lugar. O nosso, por ter comprado a passagem com muita antecedência pela internet, era um dos primeiros, alguma coisa como umas três quadras para correr já em cima da hora com malas que se viravam e reviravam todo o tempo.

Às vezes, anjos caem do céu e a gente nem sabe reconhecê-los, pois tomam formas humanas. Nas portas dos vagões, havia mocinhas conferindo as passagens. Em nosso vagão, quando chegamos exaustas, acaloradas, despenteadas, havia naquele - e só naquele - dois rapagões sorridentes e prestimosos que passaram as mãos em nossa bagagem e ajeitaram-na no compartimento próprio, enquanto nós fomos ligeiras nos sentar.
Viagem tranquila. Trem deslizando. Nem pensei que estava passando pela primeira vez pelo túnel debaixo d'água. Ao fim de duas horas e meia, estávamos em Londres e fomos recolher nossas famigeradas malas.

                                                         Saint -Pancras - Soberba






                Escultura que mais chama a atenção, assim que se chega a Saint-Pancras.





Mas como tudo que é complicado, pode se complicar um pouco mais, os anjos - que talvez não fossem muito conhecedores da falta de força das mulheres na Terra - tinham colocado nossas malas no compartimento mais alto, bem acima de nossas cabeças. Se conseguíssemos puxá-las, elas nos cairiam por cima e poderiam, com seu peso, até nos quebrar o pescoço. Ficamos desoladas a olhar para o alto e nos foi enviado outro anjo, por pura comoção dos céus. Um passageiro, que viajava com a família, viu nossa aflição, retirou nossas malas e depositou-as na plataforma.

                                               Compartimento de bagagens nos trens.



Eu disse para minha amiga que, nesta plataforma, não iríamos passar o mesmo desatino que passamos na partida e fui procurar um carrinho de transportar malas.
Andei, andei, andei e quando afinal encontrei um, vi que a moeda teria que ser de um euro e percebi que eu só tinha moeda de dois euros. Voltei, voltei, voltei e pedi a moeda a minha amiga.
Andei, andei, andei de novo. O carrinho ainda estava lá, mas não consegui destravá-lo. Nisso ia passando um funcionário e eu o chamei. Ele também não conseguiu destravar. A moeda ia e caia e ia e caia, até que o homem sacudiu a bandeja superior e percebeu que o carrinho nunca estivera travado. Me devolveu a moeda e lá fui eu de volta para empoleirar nossas malas e maletas.
Todos desciam pela esteira lá também, mas o guarda ao olhar nosso vexatório transporte, nos apontou para um elevador enorme. Anjos por toda parte?



Na saída da Saint Pancras, olhei o tamanhinho dos táxis e fiz sinal que não, que queríamos outro. Havia um senhor, não sei se era um carregador, que ficava orientando essa saída. Ele riu e abriu a porta do carro. 
Há um filme que é sátira dos filmes de Mel Gibson, Máquina Quase Mortífera,  em que o cara entra num trailer na praia e dentro se depara com um palácio com escadarias e colunas altíssimas. Pois é. O táxi era assim. Aquele veículo pequenininho, quadradinho, tinha espaço para toda a bagagem, nós duas e sobraria para mais a torcida do Internacional, ou metade do Rio Grande do Sul. Os táxis em Londres tem um painel de vidro separando os passageiros do motorista, atrás dele tem um banquinho que é dobrável e que, uma vez recolhido, dá  algo como uma sala para a acomodação das tralhas. Do lado oposto tem outro banco onde nos sentamos.
Pagamos uma fortuna para andar qualquer coisa como três quadras até o National  Hotel. 
Pode crer que aprendi essa lição muito bem. Saída por Londres, jamais!

                                                        Levando apenas o essencial.












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