quinta-feira, 29 de dezembro de 2016





                                                 

                                                 Paris, enfim ou Parri, enfã

                    Toca a usar o francês estocado por tantos anos.

A gente vai aprendendo a sair de viagem com pouca bagagem. Naquela leveza de empurrar uma mala de quatro rodinhas com menos de vinte quilos e a malinha de mão que anda sozinha. Mas há que aprender a voltar da mesma forma. 
Primeira viagem à Europa. Levei uma mala grande, forte, de couro, vermelha. Ela sozinha já era um trambolho pesado. Viajar em setembro com retorno em outubro, obriga a levar roupas de leves a pesadas. Quase carreguei só roupas de inverno, mas na véspera fui olhar a previsão do tempo em Lisboa e era de 33 graus. Joguei dentro da mala um vestido que comprara há dois dias e umas sandálias e foi o que me salvou enquanto estive em Portugal e nos primeiros dias em Paris. 
Como não tinha levado roupas leves, mergulhei nos brechós de Paris e o resultado foi a compra de mais duas malas. Nunca tinha visto roupas tão boas e preços tão baixos. Meu anjinho sensato adormeceu e eu comprando e comprando, não só para mim, mas para a família, para o próximo inverno, verão, outono e primavera. 

                                                                   Brechós de Paris











Mas o campeão de preços baixos é este aqui. As roupas chegam em caminhões próprios e em fardos enormes. No início da semana são renovados os artigos expostos e depois o preço vai baixando. É bom ir lá por vários dias, pois no início é mais caro, mas no fim da semana fica mais refugado. Agora o Guerrisol  está entrando na tendência dos parisienses também. Antes era discriminado. Aliás, são vários, mas acho que todos ficam em Montmartre, principalmente no Boulevard de Rochechouart. Viam-se poucas madames por lá. Aos poucos, elas vão chegando e entrando no jogo de procurar tesouros perdidos.



Nessa primeira viagem, ainda a mala que levei e as que adquiri, eram todas de duas rodinhas.
Como fazer para transportar tudo na volta? Nem queria saber.
Íamos sair de trem para Londres e de lá empreender a viagem de retorno ao Brasil.
Uma semana antes fui na Gare du Nord e indaguei que bagagem e peso eram permitidos.
Uma gentil funcionária me informou que podia levar dois volumes e fez um gesto com o braço no alto, demonstrando que não importava o peso ou tamanho.
Nós estávamos hospedadas a duas quadras da estação. Uma estudante de psicologia que estava no mesmo prédio se ofereceu para nos acompanhar e sugeriu que fôssemos a pé. Recusei. Impossível arrastar toda aquela tralha por duas quadras. 
Disse para elas ficarem na porta do prédio, que eu iria buscar um táxi.
Para os lados do Moulin Rouge, um táxi estava parado na porta de um restaurante. Falei com o motorista e expliquei que estávamos com muitas malas grandes e ele disse que não podia sair dali, pois esperava clientes. Mas ao ver minha aflição, saiu do carro e começou a parar táxis grandes e pedir que me atendesse. Foi muito bom, pois táxis em Paris são conduzidos por taxistas que tem regras que nós mortais nem sempre conseguimos decifrar. 
Pagamos 9 euros por duas quadras, mas valeu.
O drama começou justo quando entramos na estação. 
Pedi para minha amiga passar a mala mais leve e que se movimentava melhor. Na minha cabeça era só passar em seu nome e pronto. Esqueci que elas precisam ser empurradas, muitas vezes levantadas e se tornam um trambolho estragando a viagem de quem a leva.
Nunca mais convidei minha companheira de viagem para viajar comigo. Acredito sinceramente que ela diria não, com alguma delicada desculpa.

                                          Embarcando e desembarcando com elegância.





                     No próximo post colocarei como é subir e descer do trem com deselegância.








domingo, 25 de dezembro de 2016









                                                                            Adoção

 Adotar pode ser algo tão longo e difícil para os que adotam como para os que esperam por adoção, que, ao se concretizar, gera reações como a do menino nesta foto.

ao_ser_adotado_menino_de_3_anos_comemora_da_forma_mais_fofa__
Não basta haver todas as condições de ambos os lados, há que travar uma luta árdua e penosa contra a burocracia e contra adversários inesperados e invencíveis, que, muitas vezes, se manifestam por questiúnculas pessoais que nada tem a ver com o bem estar da criança. Posicionamentos tristes que terminam por barrar o futuro de um ser que poderia ser criado num lar desde a mais tenra idade, recebendo todo o amor e condições de desenvolvimento.

Cena 1 - Noite de chuva. Uma batida na porta de um abrigo. Uma mulher com um embrulho nos braços fica parada sob o aguaceiro. Indagada sobre o que queria, disse que viera trazer o bebê para os irmãos conhecerem. 
Cena 2 - A atendente a manda entrar. Telefona para o chefe e ele ordena que a retenham, que ele já está indo. 
A mulher tem problemas mentais e quatro filhos já lhe foram tirados e vivem no abrigo.
Por decisão do Conselho Tutelar, o bebê fica. A mulher vai embora.
Volta e meia aparecia e nem olhava o pequeno. Apática, alheia ao que a rodeava. Parecia cumprir um comando robótico, o mesmo que a levara na noite de chuva até ali.

Cena 3 - O bebê era magrinho e feinho. 
Sendo cuidado, alimentado, foi se transformando.
No entanto, desde o início, quando era feio, quando todos achavam que herdara os problemas da mãe, visto que não reagia e não conseguia permanecer sentado, desde esse tempo, uma das atendentes disse que queria adotá-lo e não se importava que tivesse problemas. 

Cena 4 - Outra atendente comprou algo diferenciado para o bebê. Foi afastada, pois era proibido se apegar. Do outro abrigo, ela orientou o que deveria fazer a interessada na adoção para abrir um processo.

Moça religiosa, sem poder ter filhos, família que apoiava sua decisão, a interessada seguiu as orientações e procurou advogado, que lhe pediu dois atestados de idoneidade, solicitados às colegas. 

Cena 5 - Entrado o processo no foro, a maior confusão. Todos os funcionários e chefes reunidos. A juíza acusando de terem passado por cima de sua autoridade. A jovem foi afastada e humilhada. As outras ameaçadas de inquérito. A juíza declarando que agora, sim, de jeito nenhum ela adotaria o bebê.

Cena 6 - O bebê é retirado para outro abrigo para dar uma lição às funcionárias.

Cena 7 . Uma criança que sorria permanentemente, que já começava a dar os primeiros passos, regrediu. Não anda mais. Fica com o olhar parado, no vazio, sem sorrir. 

A mãe requisitou a guarda. Alguém que já perdeu quatro filhos por incapacidade de criá-los, pode ganhar a guarda do quinto? 
O fato novo só vai arrastar qualquer processo de adoção e todos sabem disso. 
Será mais um criado em abrigo, cujo destino foi barrado por uma birra. 




Coloquei essa imagem, que é de um bebê reborn, porque parece uma foto dele, aquele cujo nome não posso dizer, pois parece que é crime amar essa criança.





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016





 A maior invenção do século para os viajantes foi a mala de rodinhas. Os carregadores que pululavam nas rodoviárias e estações de trem não devem ter gostado. Mas sem elas deveria ser um suplício empreender viagens longas e carregar a bagagem. Primeiro foram as de duas rodinhas, mas agora nem imagino viajar com mala de menos de quatro rodinhas. Mas é preciso escolher bem, pois por duas vezes ocorreu delas não andarem depois de carregadas. Por duas vezes joguei dinheiro fora.



 Essas moças lindas posando com suas malinhas são apenas modelos fazendo pose com malas vazias.






 Como não é meu caso fazer pose, levo uma semana tirando e botando coisas na mala. Peso várias vezes. Tiro tudo o que parece exagero: blusas demais, vestidos demais, calças demais, casacos demais? Fora! Apenas o essencial!
Mas...e se eu quiser variar, se precisar de um casaco mais grosso, mais fino, mais neutro, mais chique? Ah, só mais um, mais dois, mais três...




Duas semanas antes da viagem, esvazio uma prateleira e vou colocando tudo à medida que vou lembrando e achando que vou precisar para escolher depois. Faço a lista. Tudo certo. Mas na hora de escolher...que suplício! 
Ainda tem os cremes, sapatos, aparelhos, carregadores. A mala vai ficando pesada. Então, tiro tudo de novo e tento diminuir outra vez e outra e outra.
Meu filho e minha nora passaram um mês em Nova Iorque e duas horas antes de saírem de casa a mala ainda não havia sido feita. Jamais chegarei nesse nível. Em todo caso, adoro preparar a bagagem. Considero como parte da viagem.
Como vou sempre por um mês ou dois, a tralha para carregar é infinita.

Meu próximo sonho de consumo é uma assim, pois diminuiria o drama de procurar alguma coisa e só achar quando chego em casa e vou separar a roupa para lavar e os cremes voltarem a seus lugares nos armários. 




Tenho absoluta certeza de que estou em franco mergulho de autoconhecimento e desapego e conseguirei um dia viajar assim:


















O trem foi sacolejando toda a noite, avançando na escuridão e nós num banco duro de madeira. Os bancos de trem eram feitos de ripas de madeira e aquilo funcionava como esses massageadores produzidos na China. 


Quando amanheceu chegamos a Santa Maria, tomamos um café com leite no restaurante da estação e aguardamos o próximo trem do trajeto. 
Tomamos café ou tomei café. Na verdade, não lembro se minha avó ingeriu qualquer coisa. Na véspera ela me levara a uma lanchonete e comi uma à la minuta, arroz, feijão, bife e batatas fritas.
Não a vi comer também dessa vez. Só me lembro dela ter almoçado ao meio dia, quando se deu outra troca de trem.
Chegamos numa estaçãozinha, parece que o nome era Cacequi, descemos carregando nossa bagagem, uma sacola, duas maletinhas, pouca coisa, mas pesadas, pois não existiam malas de rodinhas.
Dois soldados, dos que vinham no vagão e continuaram a viagem, um grande e outro bem mais baixo, mulatos, com capote e farda, se ofereceram para colocar nossos pertences no vagão que estava longe ainda. Apontaram para um bosquezinho cerrado a uns duzentos metros. 
Entregamos tudo a eles e passamos por um túnel para chegar ao restaurante, onde almoçamos descansadas, sem qualquer pressa, pois o intervalo da viagem era grande.
Quando voltamos à estação, não vimos ninguém. Completamente deserta. 
Do outro lado, virado em direção contrária, havia um trem. 
Minha avó olhou as janelas dos vagões e viu dois soldados mulatos, sentados lado a lado, metidos em capotes e de farda. Ela nem hesitou. Subiu no vagão e eu atrás. Foi ligeira até os primeiros bancos, segurou um dos soldados pela gola e ficou sacudindo-o e gritando: - Cadê as nossas malas? Cadê as nossa malas? 
Os dois não emitiram um som. Só olhavam para ela de olhos arregalados.
Nesse momento, o trem começou a se movimentar.
Eu a segurei pelo braço e implorei: - Vamos embora! Deixa! Temos que descer! Vamos!
Não sei como pulamos daquele trem, mas ficamos olhando, desoladas, enquanto ele ganhava velocidade e se ia em direção oposta à nossa.
Andamos para o outro lado da estação e ficamos olhando o vazio. Nem trem, nem bagagem, nem nada.
De repente, como se fosse um filme, lá do fundo do cenário, duas figuras foram se delineando e ganhando contornos. Dois soldados, um grande e outro menor, metidos em capotes verdes.
Chegando mais perto, sorriam.
- Já acomodamos a bagagem de vocês no vagão. É só esperar um pouco que já vai chegar.

Até hoje, aqueles dois soldados, que foram sacudidos por uma mulher louca gritando pela bagagem, devem estar se perguntando o que teria acontecido.







quarta-feira, 21 de dezembro de 2016




                                  

                                             Ô trem bão, sô! ( só que não)...

Minha avó fazia coisas muito estranhas. Sempre que viajava com ela já sabia o enredo e o fim da novela. 
Ela gastava todo o dinheiro que levava nos primeiros dias e depois tínhamos que comer no bandejão e voltar para casa com passagem da prefeitura. 
Numa dessas vezes, voltamos de navio. Havia a primeira classe lá em cima, com casaizinhos em lua de mel, mas nós viajamos na terceira classe, algo mais ou menos como a classe econômica nos aviões só que pior e não ficava no mesmo nível. Se descia por uma escadinha reta para um buraco onde havia uma cabine minúscula com beliches até o teto. Só estávamos nós, as pobretonas, e isso nos dava privacidade e tranquilidade. Nem me lembro como eram as refeições, mas certamente as havia, pois a viagem durava três dias.
O banheiro era no convés, o que devia ser bem desagradável ter que descer e subir a tal escadinha para quem não era marinheiro e para minha avó, que sofria de reumatismo. Mas ela não se queixava. Fazia bobagens e aguentava calada. 
Uma madrugada, acordei e olhei pela escotilha. A água era um espelho negro, absolutamente imóvel, refletindo a lua. 



De outras vezes, voltamos num navio menor que fazia essa linha entre a capital e o porto da minha cidade e cujo comandante era primo da minha avó.



Na última vez que a volta foi com essas passagens gratuitas, voltamos de trem numa viagem de três dias, indo até a fronteira e retornando, com várias baldeações. 





O trem levava de volta para casa os soldados que haviam terminado o serviço militar. Estava cheio e, como sempre, viajávamos de segunda ou terceira classe. Algo pior possível que fosse, aí era nosso vagão. 
No banco ao lado, vinham dois policiais escoltando um prisioneiro. 
No banco da frente, ia um sujeito levando o irmão de volta para os pais, porque não concordava com o namoro dele com uma rapariga.
O cara devia estar tão apaixonado, que o trem ainda não havia saído da estação e ele já estava tentando me namorar. 
Só não lhe sentei a mão na cara, porque de escândalo já bastava nossa presença ali. Mas minha cara ficou amarrada até a primeira baldeação e eles sumirem.


O trem partiu às oito da noite e na saída da cidade foi uma gritaria para fecharem as janelas, pois havia sempre uma turma que ficava nos lados da ferrovia apedrejando os trens. 
Marginais sempre existiram, só se multiplicaram, como toda a população se multiplicou.
O problema é que um mau incomoda muito e cem bons passam despercebidos. 












Fui uma criança mimada. Minha avó me dava muitos presentes. Bolsinha de tafetá. bolsinha transparente com correntinha, anéis, chapéus e um presente que nunca esquecerei por uma razão marcante: um par de luvas cor de rosa. 
Usei, usei e usei, mas minha mão crescia e eu não queria parar de usá-las.
Naquele dia quase levei umas boas palmadas.
Elas eram guardadas dentro da bolsinha transparente com correntinha que ficava pendurada no guarda-roupa de minha mãe. 
Ela abriu a porta do guarda-roupa e ficou uma fera. Quase rugiu como uma onça furiosa.

Para que continuasse a usar, eu fizera a única coisa possível: cortara a ponta de todos os dedos da luvinha rosa. 

Pensamento de criança tem a sua lógica. 















Ganhei não sei de quem, uma bonequinha de uns oito centímetros, ricamente vestida como uma dama da corte de Luís XIV. Eu a coloquei na cristaleira de minha mãe e ficava olhando embevecida aquela maravilha. O vestido era amplo, longo com anquinhas, babadinhos azuis e rosas, corpete azul e longos cabelos escuros cacheados. Seu rostinho era bem feito, os olhos escuros e a boca vermelha. 


                       Era mais ou menos assim, mas com babadinhos azuis e cabelos escuros.



 Eu, que sempre adorei bonequinhas e ainda adoro, estava encantada com o presente. Por sorte, nunca tentei brincar com ela. Era muito pequena e ia, talvez, me sentir culpada pelo que aconteceu.

Uma manhã, fui, como nas manhãs anteriores, me encantar com sua visão.

Estava uma massa disforme. 

Derretendo com o calor do verão que chegara. 

Era de açúcar.


Quantas vezes nessa vida, ficamos encantadas com algo que nos parece um presente dos céus, firme e sólido em nossa existência e era só açúcar? Um açúcar que adoça e se dilui, se esvai, deixando apenas a lembrança?


Bonequinhas que achei no Google, que, infelizmente, não dá nem para comprar, pois não estão à venda e, mesmo que estivessem, custam o olho direito e o esquerdo e não iria gastar meu suado dinheirinho em uma aquisição para cristaleira.










domingo, 18 de dezembro de 2016





Aos poucos as regras vão entrando e fazendo parte de nossas vidas. O cinto de segurança é uma delas. Outras são o estatuto do idoso, o estatuto da criança e as leis de preservação da natureza e das espécies em extinção.





Nesta, infelizmente, não se inclui o ser humano e este pode continuar sendo morto à vontade.










Num tempo não tão distante, faziam-se coisas impensáveis hoje, sem que se levantasse a lei e
 a sociedade toda numa clamorosa defesa.



Uma manhã, vi entrar pelo portão da faculdade uma tartaruga enorme, maior do que uma banheira, caminhando lentamente,porque, é claro, era uma tartaruga e elas andam lentamente. Vinha cercada pelos professores da faculdade e o clima era de festa. Parecia Elizabeth Taylor como Cleópatra, entrando em Roma.


                                                  Cleópatra entrando em Roma


                                                         Tartaruga andando lentamente



À tardinha, ela já estava empalhada. 

Deve estar até hoje em nosso museu, mas, considerando o que vivem as tartarugas, ela deveria ainda estar na natureza, vivendo sua vidinha mais ou menos. 


E ninguém ficou sabendo, pois não existiam celulares ou internet.
As redes sociais hoje transformaram o mundo e qualquer um, com uma filmagem de celular, coloca um vídeo no YouTube e faz sua denúncia para todo o planeta.


Dizem que uma tartaruga pode viver até por 400 anos, tempo de vida que sempre defendi deveria ser o do homem. Sinceramente, para que um ser vai viver por 400 anos com uma mente de tartaruga, sem filmes, sem livros, sem pratos diferentes, pizza, hot dog, champanhe, preso dentro de um casco que não pode tirar nem um pouquinho, mesmo que sufoque de calor? Como se costuma dizer: "Isso não é vida"!


 Tartarugas se protegendo do calor embaixo de uma sombra, pois a temperatura alta ao sol as faz sentir um calor insuportável dentro dos cascos.




                                Carapaças de humanos abrigadas do sol por causa do calor.














Uma noite sonhei que, na madrugada, eu estava nessa esquina em que fiquei enfrentando o boi num duelo de olhares. Não havia touro, boi, vaca ou cavalo. Era eu sentada sozinha no silêncio e na escuridão. O sonho foi tão nítido, tão profundamente sentido, tão marcante que nunca mais a lembrança e a sensação se apagou.Acredito que meu espírito se desprendeu do corpo e foi lá. no lugar que me dava medo, para onde olhava com temor sempre que o sol se punha e as sombras iam tomando conta de tudo.






Sonhos são estranhos. Geralmente andamos por lugares e situações que não conhecemos, conversamos com pessoas que nunca vimos. Nosso cérebro é uma máquina fantástica, multiplicando nossas vidas dessa forma. Nem todos os sonhos merecem uma análise mais profunda do que alguns minutos para lembrá-lo.  Pode ter, sim, alguma simbologia. Pode, sim, querer nos passar alguma mensagem. Mas pode não ter e ser só isso: sonho.




Alguns, entretanto, parecem conter um aviso. Quando vejo essas reportagens sobre aviões que caíram e sempre alguém na véspera sonhou com a queda, isso me parece apavorante. 

Compro a passagem e já começo a me preocupar com a possibilidade de ter um sonho desses e ficar no impasse de não saber se embarco ou obedeço ao que parece ser um aviso.

Ainda mais pensando no que me ocorreu.

Sonhei que tinham roubado meu carro, que eu chegava na esquina da escola à noite e o carro não estava em lugar algum. Ficava parada com as chaves na mão e  começava a correr em volta da quadra procurando sem nada achar. Era levada até um lugar em que tinha um balcão e vários homens que ficavam me olhando e balançando a cabeça em negativa, significando que nada podiam fazer.

Cheguei na escola e contei o sonho. Ao meio dia, contei o sonho para a família.

 noite, fui para a escola sem vontade, me sentindo pesada, achando que deveria ficar em casa.Estacionei na esquina e ainda pensei que não deveria deixar o carro ali.
Saí às 23 horas e só vi a rua vazia.
Minhas colegas, que pegariam carona comigo, diziam que eu deixara o carro na outra rua, que estava enganada. Mas eu tinha certeza de que não havia engano algum. Era só a concretização do que me fora avisado. Outra colega nos levou em seu carro até uma delegacia para fazer a ocorrência. Lá, enfrentei a mesma situação sonhada. Semblantes indiferentes que faziam crer nada poderem fazer. Disseram: - Aparece, mas não se sabe em que estado.
Mas não apareceu. Nunca mais, Nem uma pista.
Um ano depois, entregaram em casa os documentos que estavam no porta-luvas dizendo que haviam sido encontrados no ônibus.

Na manhã seguinte, na escola, me diziam que eu deveria ter tido cuidado. Como é que eu tinha sido avisada e nada fizera? Ora, a gente não pode viver sob o domínio dos sonhos. 99,9999% das vezes, eles nada significam.




                                                                        
                                                                            Será?








sábado, 17 de dezembro de 2016





Tenho algum pavor intrínseco com animais de chifre. 
Ia bem cedo para a escola. Havia uma chácara em frente à minha casa, que ocupava toda a quadra e era cercada por taquaras de mais de dois metros, colocadas uma ao lado da outra e em camadas, de modo que ficava totalmente fechada. Eu atravessava na esquina para a rua da escola, por uma passagem larga que tinha de um lado essa chácara e do outro duas ou três casas, sempre fechadas àquela hora. Às vezes havia alguns animais, cavalos ou vacas, pastando ali. Eu nunca me preocupei com eles e eles nunca se preocuparam comigo. 
Mas, numa manhã, um boi enorme, preto, lá no meio da quadra, ergueu a cabeça quando surgi na esquina e ficou me olhando. E eu olhando pra ele, parada. Depois de alguns minutos, me movi para o lado das casas e ele foi me acompanhando, sempre com o olhar fixo em mim e se movendo sem avançar, mas exatamente na direção em que eu me movia. Voltei para o lado da chácara lentamente e o bicho voltou também me olhando. Esse vai pra lá e vem pra cá prosseguiu por umas três ou quatro vezes. Até hoje tenho aquela visão apavorante e nítida. 
Mesmo tendo consciência de que iria perder um tempo enorme, voltei e contornei a chácara.
Quando passei, após fazer esse contorno, pela esquina do outro lado. o animal estava no mesmo lugar, ainda talvez esperando que eu fosse reaparecer. 
Não chamei ninguém, não voltei em casa, não pedi nem esperei ajuda. 
Eu seria uma criança corajosa, determinada, capaz de procurar resolver sozinha meus problemas?
Ou inconsciente?


Ainda  hoje tenho na memória a visão nítida de um animal igual a esse decidido a, no mínimo, não me deixar passar.