A tia de minha mãe, eu chamava de tia. Era adorada por todos da família, mas eu, especialmente, tinha loucura por ela. Era uma figura miudinha, magra, muito ereta, de rosto fino e dominado por imensos olhos escuros, muito vivos, que estavam eternamente em observação do mundo. Tinha uma inteligência aguda, muito à frente de seu tempo.
Era uma solteirona, como chamavam antes as mulheres que não casavam, que não tinham marido, que decidiram enfrentar a vida e o mundo cruel sozinhas.
Devia ter sido bem bonita, pela sua estrutura, e até namorou um bom tempo e se apaixonou uma vez, que se soubesse. Foi pelo último namorado. Ela teria seguido a sina das mulheres de sua geração. Casar, ter filhos, cuidar da casa, prendas domésticas. Mas acontecia desse namorado ter algumas irmãs, que foram contra e enfiaram na cabeça do moço de não casar com ela, porque tinha asma, era uma pessoa doente e só lhe traria desgostos.
Homem frouxo é coisa séria. A medicina também não ajudava muito. O sujeito terminou o quase compromisso. Tia Eme se fechou para novas tentativas. Cerrou as cortinas. Pôs uma pedra em cima do assunto. Nunca mais namorou. E tinha vinte anos.
Foi por esse tempo que o capataz da fábrica implicou com ela porque reclamava das condições de exploração e fazia reivindicações impensáveis então. Numa das discussões, ele a pegou pelos cabelos e arrastou-a pelo chão à vista de todos os empregados. Uma lição para ninguém mais ousar seguir o mau exemplo.
O capataz agiu como um homem das cavernas.
Mas com tia Eme era assim.
Mas com tia Eme era assim.
Tia Eme abriu um processo contra o homem. O processo foi para Porto Alegre e ela se mudou para lá para acompanhá-lo e nunca mais voltou para este lugar frio no sul do sul.
Fazia doces e crochê. Vendia os doces pela cidade. Caminhava por Porto Alegre inteira, de um bairro a outro. Devia-se decerto a isso sua figura ereta e ágil até uma idade avançada.
Gráficos complicados de crochê eram seguidos com perfeição.
Estes vestidos parecem de crochê, mas são os vencedores de um concurso de vestidos de noiva feitos em papel higiênico. Haja talento!
Gráficos complicados de crochê eram seguidos com perfeição.
Estes vestidos parecem de crochê, mas são os vencedores de um concurso de vestidos de noiva feitos em papel higiênico. Haja talento!
Ela só não fazia cobertura de carro, porque não tinha carro. Mas, se lhe encomendassem uma, ela faria.
O crochê que fazia era de imensa qualidade. Cenas onde se viam moças com enormes saias, sentadas em bancos de jardim, árvores, pássaros e jovens curvados, cortejando-as. Tricotou para mim um vestido azul escuro com uma barra de flores coloridas. Fazia colchas com cenas cheias de detalhes no centro. Era uma artista.
Tia Eme nos amava e nós a amávamos muito.
Como não tenho fotos dela, imagino que tenha sido assim quando menina.












































