quarta-feira, 30 de novembro de 2016





A tia de minha mãe, eu chamava de tia. Era adorada por todos da família, mas eu, especialmente, tinha loucura por ela. Era uma figura miudinha, magra, muito ereta, de rosto fino e dominado por imensos olhos escuros, muito vivos, que estavam eternamente em observação do mundo. Tinha uma inteligência aguda, muito à frente de seu tempo.
Era uma solteirona, como chamavam antes as mulheres que não casavam, que não tinham marido, que decidiram enfrentar a vida e o mundo cruel sozinhas.
Devia ter sido bem bonita, pela sua estrutura, e até namorou um bom tempo e se apaixonou uma vez, que se soubesse. Foi pelo último namorado. Ela teria seguido a sina das mulheres de sua geração. Casar, ter filhos, cuidar da casa, prendas domésticas. Mas acontecia desse namorado ter algumas irmãs, que foram contra e enfiaram na cabeça do moço de não casar com ela, porque tinha asma, era uma pessoa doente e só lhe traria desgostos.
Homem frouxo é coisa séria. A medicina também não ajudava muito. O sujeito terminou o quase compromisso. Tia Eme se fechou para novas tentativas. Cerrou as cortinas. Pôs uma pedra em cima do assunto. Nunca mais namorou. E tinha vinte anos.
 Foi por esse tempo que o capataz da fábrica implicou com ela porque reclamava das condições de exploração e fazia reivindicações impensáveis então. Numa das discussões, ele a pegou pelos cabelos e arrastou-a pelo chão à vista de todos os empregados. Uma lição para ninguém mais ousar seguir o mau exemplo.

                                           O capataz agiu como um homem das cavernas.



                                                         Mas com tia Eme era assim.

Tia Eme abriu um processo contra o homem. O processo foi para Porto Alegre e ela se mudou para lá para acompanhá-lo e nunca mais voltou para este lugar frio no sul do sul.                           
                                                 


Fazia doces e crochê. Vendia os doces pela cidade. Caminhava por Porto Alegre inteira, de um bairro a outro. Devia-se decerto a isso sua figura ereta e ágil até uma idade avançada.


                                  Gráficos complicados de crochê eram seguidos com perfeição.




Estes vestidos parecem de crochê, mas são os vencedores de um concurso de vestidos de noiva feitos em papel higiênico. Haja talento!



 Ela só não fazia cobertura de carro, porque não tinha carro. Mas, se lhe encomendassem uma, ela faria.




O crochê que fazia era de imensa qualidade. Cenas onde se viam moças com enormes saias, sentadas em bancos de jardim, árvores, pássaros e jovens curvados, cortejando-as. Tricotou para mim um vestido azul escuro com uma barra de flores coloridas. Fazia colchas com cenas cheias de detalhes no centro. Era uma artista.



 

Sua casa parecia a casa de doce de Joãozinho e Mariazinha sem a bruxa e, sim, com uma fada dentro.

Tinha doce de tudo: goiaba, marmelo, coco, limão, abóbora, batata e outros que nem sei de quê.

                                    


                                         Tia Eme nos amava e nós a amávamos muito.


                         Como não tenho fotos dela, imagino que tenha sido assim quando menina.






terça-feira, 29 de novembro de 2016

Por estranhos caminhos, outro espanhol terminou sua fuga da Espanha aqui no sul do sul. 
Uma colega, numa das últimas escolas em que lecionei, contou a história de sua tia.
Família muito religiosa, não perde missa, temente a Deus. Cidadezinha à beira-mar, poucos habitantes, muitas chácaras e fazendas em torno, plantações de cebola, pescadores, pequeno comércio, tudo isso dominado por uma grande igreja. 




Um dia apareceu um espanhol jovem e bonito e lá se radicou. Namorou a tia da minha amiga. 
Casaram, conforme manda a santa madre igreja. Família feliz, casal feliz, todo mundo feliz.


 


Eis que aparece o irmão do espanhol procurando-o. Informam o endereço, que nesses lugares pequenos todos conhecem a todos e sabem onde estão e o que fazem.
O irmão bate na porta. O casal atende.



Mas como? 
Não era o irmão?
Verdade vindo à tona, numa cidadezinha à beira-mar no sul do sul, lá onde o vento faz a curva e onde jamais seria esperado aparecer um irmão. 
O marido não era o marido. Era um fugitivo condenado à morte à revelia como guerrilheiro pelo regime fascista de Franco. A história contada por ele bate com essa publicação.

"Num dia como este, em 1974, era barbaramente assassinado pelo Estado Espanhol o anarquista catalão Salvador Puig Antich. Foi o último preso do franquismo executado pelo método do garrote vil.
Puig Antich tinha 25 anos e pertencia ao MIL (Movimento Ibérico de Libertação), um grupo anarquista criado para apoiar a luta dos sectores mais radicais dos trabalhadores, nomeadamente através de métodos de acção directa.
Alvo de uma emboscada em Setembro de 1973, por parte da polícia, em Barcelona, Puig Antich e um companheiro resistem e tem lugar um tiroteio no qual Puig Antich acaba ferido e um guarda civil, Francisco Anguas Barragán, é morto.
Puig Antich é preso e acusado de ser o autor dos disparos que causaram a morte de Anguas Barragán e posteriormente julgado em conselho de guerra e condenado à morte por um dos regimes mais bárbaros de toda a Europa.
Em muitos países realizam-se manifestações e pedidos de comutação da pena capital, mas Franco mantém-se inflexível e não concede o indulto.
A 2 de Março de 1974, às 9:40 da manhã, numa cela da Cadeia Modelo de Barcelona Salvador Puig Antich é a última pessoa da história da Espanha a ser executada pelo garrote vil e mais um das muitas dezenas de anarquistas assassinados desta maneira pelo regime franquista"

O garrote vil foi usado na Espanha para tortura e execuções até 1978. Imagens muito tristes que não quero colocar aqui. Puig Antich e um companheiro. Seria então o companheiro que conseguira fugir.
Ele contou que tinha pego os documentos de um amigo morto e fugido para o mais longe possível. E mais longe do que aqui só a Terra do Fogo ou a Antártida.
O irmão foi embora e guardou segredo. Quem não guardaria e entregaria um compatriota que lutava por liberdade ao regime sangrento, opressor e fascista do General Franco?
Tudo teria terminado bem, se não fosse o arraigado, desarrazoado, invencível nessas famílias do campo, sentimento religioso, que pode impedir a expansão de qualquer outro sentimento.
A tia só chorava e chorava e repetia que não era casada, que o marido não existia e renegava o homem por causa do papel e da bênção que havia sido dada a outro nome. 



Não saía mais às ruas. Não ia mais às missas. Não aceitava. Não podia ser amasiada. Simplesmente não podia.



Mas pode. O amor faz dessas coisas. Ou não é amor. 
E outro fugitivo da Espanha começou uma família aqui. Em  nome do amigo.
Não sei a continuação da história. Se ficaram bem. Se ficaram mal. Com tantos conflitos em jogo, a continuação dos capítulos não deve ter sido em mar sereno.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016




Minha mãe, ao saber da carta da embaixada, sentenciou: - Eles eram tão revolucionários, que devem ter sido todos fuzilados na guerra civil. 
Ela julgou pela personalidade do avô, que se manteve turrão toda a vida. Mas também pela tia, outra figura ímpar, mas também teimosa ao extremo. 

                                     Eis como minha mãe justificava o desaparecimento dos parentes.



    Marina  Ginesta, aos 17 anos, posa no alto de um prédio e essa foto tornou-se um símbolo da resistência. Ela sobreviveu à guerra e em 2008 deu uma entrevista sobre o momento em que essa pose, com um meio sorriso irônico e destemido, foi captada.


Federico Garcia Lorca foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola.
                            Consta que foi fuzilado, mas seu corpo nunca foi encontrado.



                      Guernica foi totalmente destruída, bombardeada pelos alemães, num ensaio
                            cruel para a Segunda Guerra Mundial e Pablo Picasso a imortalizou
                                         em seu mural exposto no Museu  Reina Sofia.                               

  

                                              Alguns cartazes da Guerra Civil Espanhola
            


                 Nos últimos sete anos a Guerra Civil Espanhola apareceu duas vezes no Enem.





Quando estava na universidade, escrevi para a embaixada da Espanha, tentando descobrir alguma coisa sobre os parentes. Minha mãe disse para não fuçar na história, porque era inútil. Recebi uma resposta depois de alguns meses, cinco ou seis, me mandando cantar em outra freguesia, ou, que era impossível desde o Brasil averiguar a existência de alguém em Vigo. Era pré-internet. Depois de mais de um século, a comunicação ainda era impossível. 

                                                          A carta vinha timbrada.

                                                
                                                    E trazia essa desalentadora resposta:


Já com a internet, entrei no facebook, numa página de Vigo, postei perguntas para todos os Alonso Pereira e Pereira Alonso, mas ninguém respondeu. Devem ter ficado com medo de ser alguém querendo um pezinho para viver na Europa. O mesmo que minha mãe dizia. Ela falava: - Vais fuçar tanto nesse assunto que, quando vês, tem um bando de espanhóis na tua porta para morarem aqui.
Resultado: nada de pontes para Vigo. 


                                                              Pontes de Vigo
                                                         Belas e intransponíveis



domingo, 27 de novembro de 2016





Imagine chegar a uma cidadezinha no sul do sul, um espanhol de olhos verdes, rosto fino, com uma vida de aventura, mil histórias, como a mocinha poderia não se apaixonar? E continuar apaixonada naquele viver incerto de quando seu herói chega ou não chega, por uns quatorze anos? E cada vez que chegava a paixão estava intacta, sem tempo de desgastar-se. Aos trinta e dois anos, a adrenalina foi estancada, a vida amorosa congelada, a espera deixou de existir. Minha bisavó morreu também. Continuou andando, acordando, dormindo, comendo, mas deixou de viver. Repetiu até o fim, aos setenta e seis anos, que Eva nasceu para amar um só Adão. Nos seus últimos dias, já não atinava muita coisa e ficava chamando o nome dele todo o tempo: Maneca...Maneca...Maneca!
Tenho medo dessa coisa de perder o foco na realidade e voltar ao passado, pois odiei minha adolescência e juventude. 

       Minha bisavó construiu seus castelos de areia esperando o homem que veio do mar.
                                                 
Meu bisavô trazia coisas do mundo todo: Inglaterra, França, Nova Iorque.
Elas tinham cada uma um baú de madeira escura enorme cheio de seus tesouros.Folhinhas, joias, canetas, sapatos, isso eu ainda conheci, mas a família conseguiu a façanha de perder tudo. Quando só restavam as fotos, a do bisavô e a da família na praça em Vigo, eu perdi.

                                   Os baús eram assim, mas muito, muito, maiores






    A foto não era essa, a família também não. Era uma família maior, não tinha homem de barba. Estavam numa praça com roupas de festa (devia ser uma festa a reunião para fazer uma foto!), mas foi a única foto antiga de família grande que achei. Nem sei quem são, mas vá lá para ter uma ideia.

Minha mãe contava haver muitos anéis, num tempo em que não existia bijuteria, tudo ouro, prata e pedras preciosas. Ela ia no baú e cada dia pegava um anel e saia para brincar, perdendo-os nas lagoas um após outro.
            Como a piada do guarda, saudando na alfandêga: - Tudo joia?
                                                                                           - Não, são bijuterias, seu guarda!
                                   Essas das fotos são bijuterias. Só para ilustrar mesmo.

    Pensei muitas vezes que adoraria ter sido espanhola, dançar flamenco e usar essas roupas lindas. Assisti a uma aula de flamenco em Paris, no Café de la Gare e fiquei hipnotizada. Depois fui a um show em Barcelona.

                                         Essa realização vou deixar para a outra encarnação.


Quando eu era pequena ainda havia duas folhinhas. Lembro de uma figura de menina impressa num papel brilhante e em relevo com detalhes dourados. Tinha algo escrito que não sei o que seria, pois ainda não sabia ler. Mas a lembrança ficou nítida em minha memória. Aquilo faria um figurão agora em minha sala. Pesquisei em folhinhas antigas e não achei nada nem parecido.


Lá pelos meus quinze anos,  rolava em casa um par de sapatos marinho, com plataforma e salto grosso, perfeitamente usáveis hoje. Estavam novos. Elas iam pra fábrica de tamancos e não gastaram os sapatos, coitadas.

                                              Pareciam com esses, mas eram marinho.


Entre as histórias de meu bisavô que me foram transmitidas está a do restaurante em Nova Iorque. 
Eles desceram do navio e foram jantar. Entraram num restaurante, sentaram ao redor de uma mesa e chamaram o garçom. O sujeito veio e disse que não serviam negros naquele local. Ora, acontecia do comandante, um negro retinto, estar com eles. O comandante era a autoridade máxima para seus marinheiros. Eles insistiram e tanto, até que veio o pedido. Todos jantaram e ao final, ao recolher os pratos, o garçom pegou primeiro o prato do comandante, quebrou-o em pedacinhos, jogou no chão e pisoteou os cacos. Imagino que depois que saíram até o chão foi desinfetado. Preconceito horroroso, mas que, olhando o Brasil de hoje, ainda persiste em algumas mentes. Tanto o preconceito de cor, como o de camada social, sexo, religião e o diabo. Gente que se acha mais que os outros é o que não falta neste mundo.  

Não seria exatamente nesta época, mas Nova Iorque sempre foi Nova Iorque, desde que os americanos começaram seu desenvolvimento após matar uma boa quantidade de apaches.


sexta-feira, 25 de novembro de 2016





Quando meu bisavô morreu, minha avó estava com treze anos. Ele deve ter sido pai aos dezoito, pois a irmã dela era um ano mais velha. Seria pelo início do século XX. Minha bisavó teve no seu Maneco o homem de sua vida. Numa época em que as mulheres não tinham lá muita voz ativa e se submetiam a casamentos por vários motivos e nem sempre (ou quase nunca) por amor, ela viveu sua vida. Esperando Maneco com a mesma tenacidade com que as personagens de Beckett esperavam Godot, uma vez por ano tinha marido.Quando no ano seguinte ele voltava, tinha novo filho para conhecer. Não sei se foram muitos, pois criança morria fácil. Ela ficou viúva com duas filhas adolescentes e um nenê, que logo partiu atrás do pai.
Não havia previdência. Uma viúva não podia se expor nas ruas. Assim, minha avó e a irmã foram trabalhar na fábrica de conservas. Levantavam às cinco horas e saiam pela madrugada, tiritando de frio, sem meias ou casacos, batendo os tamancos nas calçadas. Que tempos tristes! Não havia legislação alguma que protegesse a viúva ou o trabalho infantil. A miséria e exploração que elas passaram remete a outra figura de minha árvore genealógica sem muita lógica.




             Direitos eram coisas que as mulheres no início do século passado não conheciam.









                       


                                         Eis onde tudo começou. Vigo, Galícia, Espanha.







Em Vigo, Galícia, Espanha, um menino de onze anos pulou o muro da igreja junto com seu irmão e colheu algumas laranjas. O padre os surpreendeu e correu a enxotá-los, gritando que faria queixa a seu pai. Com medo da reação do pai, os dois se esconderam no porão de um navio. De madrugada, o irmão resolveu voltar para casa, mas o menino, turrão, ficou firme no esconderijo. 
Só foi descoberto em alto mar. Num tempo em que não existiam possibilidades de comunicação, resolveram seguir a viagem rumo ao Brasil com aquele clandestino.
O menino cresceu, fez-se moço, no navio aprendeu a profissão de foguista, tornou-se marinheiro. 
Estava pelos vinte anos e sua mãe, fazendo uma volta ao mundo, avistou-o no porto de Santos e pediu a alguém para chamá-lo. Ele não foi e mandou dizer que só voltaria para casa quando fosse tão rico quanto o pai.  Nunca voltou.
Um dia resolveu tentar a vida em terra. Abriu um bar ao lado da casa da minha avó. 
Eis a história que resultou nesta pessoa. 
É presunção pensar que todo o universo se move, ajeitando caminhos para nossa existência? 
Mesmo porque ele não sossegou muito tempo e logo se foi mar à fora, pois navegar é preciso.
Dizia que, se algum dia não pudesse mais viajar, morreria. 
Morreu com trinta e dois anos, porque não mais poderia se libertar das amarras de um mundo sombrio e se lançar pelo oceano, ver o azul do céu e as cores cambiantes do por do sol na água.
Ficara cego.
Havia contraído alguma moléstia estranha ou sei-lá-o-quê, que lhe tirou a visão. Naquele tempo, não sabiam muito. Talvez fosse diabético. Ninguém sabe. Morreu de tristeza. 
Nunca a família conseguiu se comunicar com os parentes da Espanha e foi o primeiro elo perdido.
Só ficou a paixão por viajar.




                                                             Esculturas em Vigo
                                             Estátua de Júlio Verne, em homenagem ao autor 
                                         de "Vinte Mil Léguas Submarinas", cujo herói dali partiu.




                                                                Os pescadores
Há muitas esculturas espalhadas por Vigo. Vou guardá-las para as conhecer quando lá estiver. Cruzando os dedinhos para isso acontecer logo. Vou procurar uma igreja perto do porto e imaginar de qual casa o menino fugiu. Uma cidade linda e ele viveu o resto de sua curta vida sem voltar a vê-la.