Quando entrei na Europa pela primeira vez, em Lisboa, repetiu-se o que sempre era narrado por outros brasileiros. Estupidez, dificuldades, gritos. Fiquei com a impressão de que isso era praxe e que sempre seria assim.
Extraordinariamente, quando voltei nas outras vezes, em governos de PT, pouco faltou para que nos estendessem tapete vermelho. Foi algo muito e muito visível essa diferença no tratamento. O Brasil estava bem. A Espanha, de onde eram escandalosamente repatriados brasileiros de forma sistemática, essa Espanha estava pedindo ao governo brasileiro que acolhesse os espanhóis que aqui procurassem trabalho. Pena que todos os brasileiros não tenham essa possibilidade de comparação e tenham ajudado a trocar o governo por uma máfia.
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Lisboa, chegada. Passagem de bolsa e malas de mão pelas bandejas. Um funcionário grita, enfia a mão na minha bolsa, escarafuncha, berra: - Onde está o porta-dólares?
Abro o casaco para tirar a bolsinha que trazia presa ao ombro. Ele berra impaciente - Não sei por que carregam isso! - reclamando por eu trazer o dinheiro junto ao corpo.
Depois de ter sonhado e planejado por décadas a viagem, engoli os desaforos, que eram só uma amostra do que ainda veria.
No retorno, nosso avião não pode aterrissar por causa da cerração e ficou sobrevoando até ser obrigado a ir a Faro abastecer e voltar. Com isso, chegamos com duas horas de atraso.
Desembarcamos e passamos novamente pelas esteiras. Tira casaco, abre bolsa, expõe líquidos, deposita na bandeja brincos, relógios, moedas. Algumas mulheres e crianças calçavam botas e tiveram que tirá-las e enfiar os pés em sacos plásticos. Isso superado, deitamos a correr até o portão de embarque para chegar lá e vê-lo fechado. Uma quantidade de pessoas desorientadas ficou se olhando sem saber o que fazer. Um dos brasileiros voltou ao início daquele caminho e depois reapareceu com a notícia de que alguém da TAP queria nos comunicar algo.
Refizemos a caminhada, até que um do grupo disse: - Esperem! Se um homem quer falar com o grupo, não é mais lógico que ele venha até aqui do que fazer todo esse pessoal ir até lá?
Que nada! Nós é que éramos uns pobres cucarachas e tínhamos mais é que nos ajoelharmos diante dos todos poderosos europeus.
Para chegarmos até o homem que queria nos dizer algo, tivemos que passar pelas bandejas novamente com todo seu ritual, já nessa altura, humilhante. Ora, se havíamos passado por isso em Londres, se passamos novamente nesse aeroporto de Lisboa ao chegar, o que de tão irregular teríamos adquirido dentro do aeroporto para sermos revistados novamente, expor o conteúdo das bolsas nas bandejas e mulheres e crianças tirarem as botas e colocarem sacos plásticos nos pés para serem admitidas na "saída"?
Tivemos que nos enfileirar e apresentar passaportes nos guichês e fomos recebidos com uma observação sarcásticas: - Ah! É o grupo que perdeu o voo! - disse a mulher com maus modos. Foi a segunda funcionária na mesma manhã a nos tratar mal. Na saída de Londres, ao perguntar para uma delas para onde deveríamos nos dirigir, ela sacudiu os ombros, expressando o que eu já entendia por "Cucarachas, virem-se!"
O homenzinho nos recebeu num corredor. Alguém começou a filmar e ele berrou: - Podem filmar à vontade! Não tenho medo!
Outros começaram a jogar malas no chão.
Ele disse: - O que tenho para oferecer a vocês é um hotel. Depois um funcionário vai procurá-los com uma solução. Quem quiser ir, que vá; quem não quiser, que fique.
Fui, é claro.Mas alguns ficaram.
Fomos levados a um hotel Marriott. Escadas de mármore, veludos e pianos, várias salas para refeições, comida ótima, vinho à vontade. Mas não tinha internet. Só pagando. No jantar, já não tinha mais direito a vinho.
Hotel Marriott
Ficamos num quarto igual a este.
Só que esse hotel ficava perto do aeroporto e no meio do nada. Quando consegui convencer minha amiga a sair, o taxista nos disse que não havia onde ir num domingo à noite. Agora eu sei o quanto a cidade é cheia de vida nos domingos à noite. Eu já tinha lido sobre isso, mas não me animei a contestar um taxista e fomos dormir. Depois fiquei sabendo que estávamos a dois passos do Shopping Colombo, que só fui conheceer na terceira vez que estive em Lisboa.
Nos deram cartão para um telefonema para o Brasil.
À noite, um funcionário apareceu com uma folha de caderno com uns rabiscos e foi chamando para revelar o destino. Alguns já haviam comentado que eles iam começar a enfiar uns aqui, outros ali, em voos pingados.
Dois rapazes que vinham da Alemanha, voltaram sorridentes:- Vamos amanhã direto para Porto Alegre.
Ficamos esperançadas, eu e minha amiga, mas qual! A nós o sujeito disse que estaríamos num voo para Natal na tarde do dia seguinte.
Passei a noite cismando que eles nos mandavam para Natal e de lá nós teríamos que nos virar. Com isso, madruguei, acordei minha amiga e fomos para o aeroporto depois do café, este horrível, numa sala com enormes mesas com tampos de mármore e cadeiras estofadas de veludo vermelho. Tudo doce e não como doce no café da manhã.
Aeroporto. Uma fila para o balcão de atendimento da TAP. Uma longa espera.
Quando chegamos ao balcão, a portuguesa disse: - Vocês não sabem seu destino, mas nós sabemos.
Nos entregou a passagem e disse que teríamos que deixar o hotel ao meio dia.
Nos afastamos e me lembrei que o almoço era servido ao meio dia e meia. Voltei e pedi a ela o cartão para almoço no aeroporto. Entreguei minha passagem e ela disse que teria que ter a de minha amiga também.
Parti atrás dela, que já estava um lance abaixo, em direção à saída. Peguei a passagem e voltei, entrando direto para o balcão.
Da fila, um casal de -supostamente - alemães, começou a gritar: -Here! Here!
Apontavam para a fila.
Eu gritei: - Não! Já estive aí por horas. Já fui atendida e não vou voltar. Tenho direito a ficar aqui.
Fiquei repetindo um pouco em português, um pouco em inglês.
Eles gritavam, eu gritava, o pessoal da fila, todos brasileiros, gritavam: - Fica! Fica!
Eu fiquei. Eles chamaram um segurança, um sujeito enorme. Ele parou a meu lado sem entender o que estava acontecendo.
Nesse momento, uma loura alta entra também pelo lado oposto à fila e chega no balcão. Ela estava muito irritada e há dias com um problema de bagagem. O homem me deixou ali e foi argumentar com a loura que não era possível chegar ao atendimento daquele jeito.
Eis que a pessoa que estava sendo atendida, se afasta. Seria minha vez. Seria. O casal sai da fila e se posta um de cada lado da minha pessoa pequenininha e começa a me apertar para me impedir de avançar.
A atendente e eles começam a falar em inglês de uma forma alterada, que nem tentei entender e eis que ela lhes permite me empurrarem e passarem na minha frente e os atende.
Nunca vou esquecer daqueles dois, grandes, louros, estúpidos e idosos, numa idade em que já deveriam ter aprendido a ter educação.
A funcionária deveria ter-lhes dito que já estava me atendendo, mas foi conivente com a maldade deles.
Valeu a torcida dos brasileiros.
E, afinal, o almoço também valeu.
Antes de sair, um funcionário adverte:- Venham cedo, pois terão mais de vinte minutos de caminhada até o portão.
Na véspera ninguém teve dó dessa caminhada.