Quando meu bisavô morreu, minha avó estava com treze anos. Ele deve ter sido pai aos dezoito, pois a irmã dela era um ano mais velha. Seria pelo início do século XX. Minha bisavó teve no seu Maneco o homem de sua vida. Numa época em que as mulheres não tinham lá muita voz ativa e se submetiam a casamentos por vários motivos e nem sempre (ou quase nunca) por amor, ela viveu sua vida. Esperando Maneco com a mesma tenacidade com que as personagens de Beckett esperavam Godot, uma vez por ano tinha marido.Quando no ano seguinte ele voltava, tinha novo filho para conhecer. Não sei se foram muitos, pois criança morria fácil. Ela ficou viúva com duas filhas adolescentes e um nenê, que logo partiu atrás do pai.
Não havia previdência. Uma viúva não podia se expor nas ruas.
Assim, minha avó e a irmã foram trabalhar na fábrica de conservas.
Levantavam às cinco horas e saiam pela madrugada, tiritando de frio, sem
meias ou casacos, batendo os tamancos nas calçadas. Que tempos tristes!
Não havia legislação alguma que protegesse a viúva ou o trabalho
infantil. A miséria e exploração que elas passaram remete a outra figura
de minha árvore genealógica sem muita lógica.
Direitos eram coisas que as mulheres no início do século passado não conheciam.
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