terça-feira, 29 de novembro de 2016

Por estranhos caminhos, outro espanhol terminou sua fuga da Espanha aqui no sul do sul. 
Uma colega, numa das últimas escolas em que lecionei, contou a história de sua tia.
Família muito religiosa, não perde missa, temente a Deus. Cidadezinha à beira-mar, poucos habitantes, muitas chácaras e fazendas em torno, plantações de cebola, pescadores, pequeno comércio, tudo isso dominado por uma grande igreja. 




Um dia apareceu um espanhol jovem e bonito e lá se radicou. Namorou a tia da minha amiga. 
Casaram, conforme manda a santa madre igreja. Família feliz, casal feliz, todo mundo feliz.


 


Eis que aparece o irmão do espanhol procurando-o. Informam o endereço, que nesses lugares pequenos todos conhecem a todos e sabem onde estão e o que fazem.
O irmão bate na porta. O casal atende.



Mas como? 
Não era o irmão?
Verdade vindo à tona, numa cidadezinha à beira-mar no sul do sul, lá onde o vento faz a curva e onde jamais seria esperado aparecer um irmão. 
O marido não era o marido. Era um fugitivo condenado à morte à revelia como guerrilheiro pelo regime fascista de Franco. A história contada por ele bate com essa publicação.

"Num dia como este, em 1974, era barbaramente assassinado pelo Estado Espanhol o anarquista catalão Salvador Puig Antich. Foi o último preso do franquismo executado pelo método do garrote vil.
Puig Antich tinha 25 anos e pertencia ao MIL (Movimento Ibérico de Libertação), um grupo anarquista criado para apoiar a luta dos sectores mais radicais dos trabalhadores, nomeadamente através de métodos de acção directa.
Alvo de uma emboscada em Setembro de 1973, por parte da polícia, em Barcelona, Puig Antich e um companheiro resistem e tem lugar um tiroteio no qual Puig Antich acaba ferido e um guarda civil, Francisco Anguas Barragán, é morto.
Puig Antich é preso e acusado de ser o autor dos disparos que causaram a morte de Anguas Barragán e posteriormente julgado em conselho de guerra e condenado à morte por um dos regimes mais bárbaros de toda a Europa.
Em muitos países realizam-se manifestações e pedidos de comutação da pena capital, mas Franco mantém-se inflexível e não concede o indulto.
A 2 de Março de 1974, às 9:40 da manhã, numa cela da Cadeia Modelo de Barcelona Salvador Puig Antich é a última pessoa da história da Espanha a ser executada pelo garrote vil e mais um das muitas dezenas de anarquistas assassinados desta maneira pelo regime franquista"

O garrote vil foi usado na Espanha para tortura e execuções até 1978. Imagens muito tristes que não quero colocar aqui. Puig Antich e um companheiro. Seria então o companheiro que conseguira fugir.
Ele contou que tinha pego os documentos de um amigo morto e fugido para o mais longe possível. E mais longe do que aqui só a Terra do Fogo ou a Antártida.
O irmão foi embora e guardou segredo. Quem não guardaria e entregaria um compatriota que lutava por liberdade ao regime sangrento, opressor e fascista do General Franco?
Tudo teria terminado bem, se não fosse o arraigado, desarrazoado, invencível nessas famílias do campo, sentimento religioso, que pode impedir a expansão de qualquer outro sentimento.
A tia só chorava e chorava e repetia que não era casada, que o marido não existia e renegava o homem por causa do papel e da bênção que havia sido dada a outro nome. 



Não saía mais às ruas. Não ia mais às missas. Não aceitava. Não podia ser amasiada. Simplesmente não podia.



Mas pode. O amor faz dessas coisas. Ou não é amor. 
E outro fugitivo da Espanha começou uma família aqui. Em  nome do amigo.
Não sei a continuação da história. Se ficaram bem. Se ficaram mal. Com tantos conflitos em jogo, a continuação dos capítulos não deve ter sido em mar sereno.


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