Eis onde tudo começou. Vigo, Galícia, Espanha.
Em Vigo, Galícia, Espanha, um menino de onze anos pulou o muro da igreja
junto com seu irmão e colheu algumas laranjas. O padre os surpreendeu e
correu a enxotá-los, gritando que faria queixa a seu pai. Com medo da
reação do pai, os dois se esconderam no porão de um navio. De madrugada,
o irmão resolveu voltar para casa, mas o menino, turrão, ficou firme no
esconderijo.
Só foi descoberto em alto mar. Num tempo em que não existiam
possibilidades de comunicação, resolveram seguir a viagem rumo ao Brasil
com aquele clandestino.
O menino cresceu, fez-se moço, no navio aprendeu a profissão de foguista, tornou-se marinheiro.
Estava pelos vinte anos e sua mãe, fazendo uma volta ao mundo,
avistou-o no porto de Santos e pediu a alguém para chamá-lo. Ele não foi
e mandou dizer que só voltaria para casa quando fosse tão rico quanto o
pai. Nunca voltou.
Um dia resolveu tentar a vida em terra. Abriu um bar ao lado da casa da minha avó.
Eis a história que resultou nesta pessoa.
É presunção pensar que todo o universo se move, ajeitando caminhos para nossa existência?
Mesmo porque ele não sossegou muito tempo e logo se foi mar à fora, pois navegar é preciso.
Dizia que, se algum dia não pudesse mais viajar, morreria.
Morreu com trinta e dois anos, porque não mais poderia se libertar das
amarras de um mundo sombrio e se lançar pelo oceano, ver o azul do céu e
as cores cambiantes do por do sol na água.
Ficara cego.
Ficara cego.
Havia contraído alguma moléstia estranha ou sei-lá-o-quê, que lhe tirou a
visão. Naquele tempo, não sabiam muito. Talvez fosse diabético. Ninguém
sabe. Morreu de tristeza.
Nunca a família conseguiu se comunicar com os parentes da Espanha e foi o primeiro elo perdido.
Só ficou a paixão por viajar.





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