Imagine chegar a uma cidadezinha no sul do sul, um espanhol de olhos verdes, rosto fino, com uma vida de aventura, mil histórias, como a mocinha poderia não se apaixonar? E continuar apaixonada naquele viver incerto de quando seu herói chega ou não chega, por uns quatorze anos? E cada vez que chegava a paixão estava intacta, sem tempo de desgastar-se. Aos trinta e dois anos, a adrenalina foi estancada, a vida amorosa congelada, a espera deixou de existir. Minha bisavó morreu também. Continuou andando, acordando, dormindo, comendo, mas deixou de viver. Repetiu até o fim, aos setenta e seis anos, que Eva nasceu para amar um só Adão. Nos seus últimos dias, já não atinava muita coisa e ficava chamando o nome dele todo o tempo: Maneca...Maneca...Maneca!
Tenho medo dessa coisa de perder o foco na realidade e voltar ao passado, pois odiei minha adolescência e juventude.
Minha bisavó construiu seus castelos de areia esperando o homem que veio do mar.
Meu bisavô trazia coisas do mundo todo: Inglaterra, França, Nova Iorque.
Elas tinham cada uma um baú de madeira escura enorme cheio de seus tesouros.Folhinhas, joias, canetas, sapatos, isso eu ainda conheci, mas a família conseguiu a façanha de perder tudo. Quando só restavam as fotos, a do bisavô e a da família na praça em Vigo, eu perdi.
A foto não era essa, a família também não. Era uma família maior, não tinha homem de barba. Estavam numa praça com roupas de festa (devia ser uma festa a reunião para fazer uma foto!), mas foi a única foto antiga de família grande que achei. Nem sei quem são, mas vá lá para ter uma ideia.
Minha mãe contava haver muitos anéis, num tempo em que não existia bijuteria, tudo ouro, prata e pedras preciosas. Ela ia no baú e cada dia pegava um anel e saia para brincar, perdendo-os nas lagoas um após outro.
Como a piada do guarda, saudando na alfandêga: - Tudo joia?
- Não, são bijuterias, seu guarda!
Essas das fotos são bijuterias. Só para ilustrar mesmo.
Pensei muitas vezes que adoraria ter sido espanhola, dançar flamenco e usar essas roupas lindas. Assisti a uma aula de flamenco em Paris, no Café de la Gare e fiquei hipnotizada. Depois fui a um show em Barcelona.
Essa realização vou deixar para a outra encarnação.
Quando eu era pequena ainda havia duas folhinhas. Lembro de uma figura de menina impressa num papel brilhante e em relevo com detalhes dourados. Tinha algo escrito que não sei o que seria, pois ainda não sabia ler. Mas a lembrança ficou nítida em minha memória. Aquilo faria um figurão agora em minha sala. Pesquisei em folhinhas antigas e não achei nada nem parecido.
Lá pelos meus quinze anos, rolava em casa um par de sapatos marinho, com plataforma e salto grosso, perfeitamente usáveis hoje. Estavam novos. Elas iam pra fábrica de tamancos e não gastaram os sapatos, coitadas.
Pareciam com esses, mas eram marinho.
Entre as histórias de meu bisavô que me foram transmitidas está a do restaurante em Nova Iorque.
Eles desceram do navio e foram jantar. Entraram num restaurante, sentaram ao redor de uma mesa e chamaram o garçom. O sujeito veio e disse que não serviam negros naquele local. Ora, acontecia do comandante, um negro retinto, estar com eles. O comandante era a autoridade máxima para seus marinheiros. Eles insistiram e tanto, até que veio o pedido. Todos jantaram e ao final, ao recolher os pratos, o garçom pegou primeiro o prato do comandante, quebrou-o em pedacinhos, jogou no chão e pisoteou os cacos. Imagino que depois que saíram até o chão foi desinfetado. Preconceito horroroso, mas que, olhando o Brasil de hoje, ainda persiste em algumas mentes. Tanto o preconceito de cor, como o de camada social, sexo, religião e o diabo. Gente que se acha mais que os outros é o que não falta neste mundo.
Não seria exatamente nesta época, mas Nova Iorque sempre foi Nova Iorque, desde que os americanos começaram seu desenvolvimento após matar uma boa quantidade de apaches.








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