sexta-feira, 16 de dezembro de 2016





Odiei a moda da minha adolescência e juventude.  Odiei tanto que procuro nunca me lembrar dela.
Odiei o estilo de móveis também. Quando vejo artigos e reportagens saudosistas me embrulha o estômago. 
Aqueles móveis com pés de palito e cores berrantes jamais entrariam na minha casa.
Roupas e calçados eram um desastre e um desconforto.
Minha mãe costurava por figurino e na minha infância ainda era pior. E na juventude de minha mãe foi pior. E na de minha avó foi pior ainda. 
Assim é que a moda evolui trazendo escolha e conforto, além de permitir que cada um seja e vista o que quiser.


Pode até parecer bonito agora, mas era simplesmente horrível: as saias largas, a cintura apertada, os sapatinhos de salto fino. Me sentia profundamente infeliz dentro dessas roupas.

                                           Para os homens, a moda era igualmente ridícula.






Quando chegava o inverno era pior. Casacão, meias de nylon e sapatinho de salto fino. Uniforme de domingo. Como é que eu caminhava no calçamento com aqueles saltinhos?

          Haverá algo mais ridículo do que o terninho de Tippi Hedren em "Os Pássaros"?




















                                               Elizabeth Taylor era linda na tela de cinema.



                                                          Audrey Hepburn era etérea.


                       E eu me sentindo como se vestisse sempre uma roupa de astronauta.





Os móveis eram esquisitos. Claro que isso era em revistas, pois raros eram os que adquiriam mobiliário seguindo moda.





O que quero dizer com isso? Que detesto o saudosismo de pessoas que ficam suspirando que em outros tempos era melhor. Não. Agora é melhor. Entretanto, nesse exato momento, devem existir milhões de adolescentes se sentindo feias, gordas, magras, deslocadas, rejeitadas, sem graça, mal vestidas, sem remédio, sem conserto, que só se sentirão bem consigo mesmas quando esta fase terrível passar.

A minha passou. Ah! Porém, como eu gostaria de estar me sentindo agora feia, gorda, magra, deslocada, rejeitada, sem graça, mal vestida, sem remédio, sem conserto e estar de novo com quinze anos!

Mas, considerando que teria que fazer ensino médio, faculdade, pós, ter filhos (três partos!), trabalhar arduamente, talvez, se me fosse permitido optar, escolhesse voltar aos trinta e cinco com a cabeça de agora. Nessa idade eu já tinha alcançado tudo e poderia abraçar muito e muito meus filhos pequeninos. Essa é a maior alegria que temos na vida. Esse é a parte da minha vida que eu repetiria quantas vezes me fosse permitido retornar. Qualquer coisa como a máquina do tempo.








Filhos. Eu queria e não queria. 
Achava que o mundo não os merecia. Agora continuo com a mesma convicção. 
Mas eles vieram e eu os amei e amo demais.
Uma vez comentei na escola que, se soubesse que iria querer tanto a meus filhos, não os teria tido.
Minhas colegas me olharam como se eu fosse totalmente louca. 
Entretanto, é um raciocínio lógico. A gente os ama tanto, que passamos a viver em desassossego por qualquer coisa que possa lhes acontecer, por qualquer espirro, pelo que vem e o que não vem.

A gente não quer que eles sofram, teme que adoeçam, o coração nunca mais sossega.
Houve doenças, houve cirurgias, houve muitas vezes em que me senti fraca e inútil diante da dor deles. Vezes em que meu abraço não era suficiente, que minhas preces pareciam não ter alcance algum, que apenas o que podia fazer era passar e passar minhas mãos em seus corpinhos e esperar, esperar, esperar, com a alma em suspense e uma oração sem palavras nem fim.
Ainda agora continuam para mim os mesmos anjos que os céus me confiaram. Ainda agora vivo no mesmo suspense: onde estão, como estão, quando irão chegar?

Vinicius tinha razão. Melhor não tê-los, porque tê-los é como disse outro pensador: é viver para sempre com o coração fora do peito.

        
     Filhos, melhor não tê-los; mas, se não os temos, como sabê-lo? -                                  Vinicius de Moraes




















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