quarta-feira, 21 de dezembro de 2016




                                  

                                             Ô trem bão, sô! ( só que não)...

Minha avó fazia coisas muito estranhas. Sempre que viajava com ela já sabia o enredo e o fim da novela. 
Ela gastava todo o dinheiro que levava nos primeiros dias e depois tínhamos que comer no bandejão e voltar para casa com passagem da prefeitura. 
Numa dessas vezes, voltamos de navio. Havia a primeira classe lá em cima, com casaizinhos em lua de mel, mas nós viajamos na terceira classe, algo mais ou menos como a classe econômica nos aviões só que pior e não ficava no mesmo nível. Se descia por uma escadinha reta para um buraco onde havia uma cabine minúscula com beliches até o teto. Só estávamos nós, as pobretonas, e isso nos dava privacidade e tranquilidade. Nem me lembro como eram as refeições, mas certamente as havia, pois a viagem durava três dias.
O banheiro era no convés, o que devia ser bem desagradável ter que descer e subir a tal escadinha para quem não era marinheiro e para minha avó, que sofria de reumatismo. Mas ela não se queixava. Fazia bobagens e aguentava calada. 
Uma madrugada, acordei e olhei pela escotilha. A água era um espelho negro, absolutamente imóvel, refletindo a lua. 



De outras vezes, voltamos num navio menor que fazia essa linha entre a capital e o porto da minha cidade e cujo comandante era primo da minha avó.



Na última vez que a volta foi com essas passagens gratuitas, voltamos de trem numa viagem de três dias, indo até a fronteira e retornando, com várias baldeações. 





O trem levava de volta para casa os soldados que haviam terminado o serviço militar. Estava cheio e, como sempre, viajávamos de segunda ou terceira classe. Algo pior possível que fosse, aí era nosso vagão. 
No banco ao lado, vinham dois policiais escoltando um prisioneiro. 
No banco da frente, ia um sujeito levando o irmão de volta para os pais, porque não concordava com o namoro dele com uma rapariga.
O cara devia estar tão apaixonado, que o trem ainda não havia saído da estação e ele já estava tentando me namorar. 
Só não lhe sentei a mão na cara, porque de escândalo já bastava nossa presença ali. Mas minha cara ficou amarrada até a primeira baldeação e eles sumirem.


O trem partiu às oito da noite e na saída da cidade foi uma gritaria para fecharem as janelas, pois havia sempre uma turma que ficava nos lados da ferrovia apedrejando os trens. 
Marginais sempre existiram, só se multiplicaram, como toda a população se multiplicou.
O problema é que um mau incomoda muito e cem bons passam despercebidos. 







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