Quando minha mãe disse que os parentes deviam ter sido fuzilados na guerra civil, ela se baseou na personalidade de tia Eme. Se ela estivesse na Inglaterra do início do século XX, estaria sendo presa com as sufragistas.
Era firme, combativa, revolucionária. Se estivesse na Espanha, poderia ter sido ícone da Guerra Civil Espanhola em vez de Marina Ginesta.
Foi presa durante o governo de Getúlio Vargas por causa de uma manifestação e em seu caderninho que perdi relatava o que passara na prisão.
Quando Brizola conclamou o povo para a resistência à queda de Jango Goulart, ela estava lá na frente do Palácio Piratini.
Nas suas andanças pela cidade, ficara amiga de Brizola, então um engenheiro recém formado com um escritoriozinho no centro da capital.
Minha mãe, quando a visitou, foi levada até o escritório para conhecê-lo e tia Eme apresentou-o com as seguintes palavras: "-Uma inteligência brilhante! Futuro presidente do Brasil!" A nossa família sempre votava nele para ajudar a cumprir a profecia. Ficou no quase.
Um dia, Brizola veio à nossa cidade para um comício e tia Eme mandou uma encomenda para minha mãe. Naquele tempo as pessoas sempre pediam para alguém que ia a determinado lugar, aqui ou na Conchinchina, entregar uma encomenda. E eis que Brizola entrou pela nossa casa a dentro com um embrulhinho em papel pardo sob o braço. Naquele tempo, ainda não havia televisão Globo para tentar derrubá-lo e ele estava começando sua ascensão no cenário político.
Tia Eme foi uma apaixonada pela liberdade e direitos. Como já disse, uma mente brilhante.
Tendo sido alfabetizada nas escolinhas mantidas na época em casas de família, onde uma professora colocava meia dúzia de banquinhos e carteiras e cobrava para ensinar um pouco de alguma coisa, ela chegou a um nível de leitura impressionante.
Sua casa era praticamente forrada de jornais e livros.
E não esquecia nada.
Aí entra o aspecto de sua personalidade que mais me encantava.
Era uma coisa mágica.
Quando vinha passar uns dias ou uns meses em nossa casa (nunca achávamos o suficiente), ela reunia a família em torno dela todas as noites para contar histórias.
Minha paixão por literatura deve ter começado aí.
Tia Eme sentava no meio e nós, adultos e crianças, fazíamos um semicírculo a seus pés e ouvíamos embevecidos a sua voz teatral e sonora, vivendo cada palavra do livro que tinha lido, sem esquecer uma vírgula.
Quando ela achava que já era hora de dormir, dizia:- Por hoje chega.
E todos obedeciam.
Serões familiares
No dia seguinte, como se abrisse um livro marcado, recomeçava exatamente do ponto em que havia parado. Não sem antes indagar se a gente lembrava em que havia ficado a narrativa. Nós esquecíamos, ela não. Esquecíamos até porque não nos importávamos de ouvir tudo de novo.
Ela fazia suspense. Sua voz subia em determinados trechos para nos deixar sem fôlego.
- Então a porta se abriu e surge...quem?
Espanto, expectativa.
Assim fui entrando nesse reino mágico e vivi desde as aventuras de bonecos que ganhavam vida em "O Quebra Nozes" até as intrincadas investigações de Hercules Poirot e de outros livros de Agatha Christie.
Quando cresci, fui atrás dos livros e Ó desilusão! a narrativa de tia Emi era muito, mas muito mais empolgante. Por isso, não me tornei uma leitora de Agatha Christie, mas gostaria de assistir ao balé "O Quebra Nozes".






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