sexta-feira, 2 de dezembro de 2016





Como já mencionei, tia Eme e a irmã foram alfabetizadas por mulheres que se intitulavam professoras, mas como não eram regularizadas e obrigadas a apresentar titulação, também não podiam fornecer certificados e, se os fornecessem, não valeriam de nada. Mas a família tinha horror de escola régia, que eram as escolas públicas naquela época. Pensavam, como muitos pensam ainda, que o fato de pagar proporcionava um ensino diferente.
Eu tive alguns colegas que montaram essas escolinhas em casa, mas eram aulas particulares ou de reforço. Ninguém pensaria nisso como uma opção à escola regulamentar. 
Entretanto, nos Estados Unidos há, desde alguns anos, um movimento no sentido de pais ministrarem o ensino aos filhos em casa. Tudo por medo de serem assassinados por algum louco, que isso lá tem muito. Esforço maior do que as sete tarefas de Hércules. Uma mãe, um pai, de repente se transformam em experts em um monte de coisas, pesquisando, planejando, estando aptos a discutir vários assuntos, dirimir dúvidas, de exatas às humanas, pois não sendo assim, não é ensino

                                                          Mães ensinando filhos.




                                                            Pai ensinando filha.


                                                   Mas eles ensinam também isso:



                                E o resultado são pais com medo de mandar filhos para a escola.
 

Mas acho que nenhum ensino em casa, substitui uma boa escola, sua diversidade e a vivência. 
Eu chegava a levar três dias com o planejamento de uma aula, escolhendo textos, exercícios, trabalhos que poderia desenvolver, talvez uma dramatização, uma redação, um jogral.Francamente, era só uma disciplina. Imaginem os pais americanos lidando com todas. Ao mesmo tempo, ninguém quer expor filhos ao perigo. Melhor ir cada vez mais para o sul do sul. Uruguai.                                                                    
                                    Lá ainda me parece um oásis, apesar da maconha livre.

Ou talvez seja justo por isso. 



Pois tia Eme, sem condições de espécie alguma de estudar e tendo sua adolescência cortada pela morte do pai e o trabalho escravo na fábrica de conservas, tinha vocação para advogada. Área criminal. Direito penal. Não perdia um júri, que se prolongavam às vezes por dias e noites e ela ali, firme. Foi através de seus relatos que conheci Lia Pires, por quem ela nutria enorme admiração por sua atuação na defesa de réus que eram dados antecipadamente como condenados e o advogado, brilhantemente, os livrava. Podia ser o maior assassino e Lia Pires o transformava em vítima das circunstâncias, um cordeirinho que caíra numa armadilha. 
Uma colega e amiga me contava que passou noites e mais noites debruçada sobre livros e não tinha como inocentar um rapaz que tinha furado os olhos de outro. -Mas consegui! -dizia ela, com orgulho. 
Deve ser por isso que não tem advogados no céu.

Tia Eme teria sido uma advogada brilhante, por sua inteligência, memória e talento para a oratória. 
Naquela época, direito não era carreira para as mulheres e as que conheciam seus direitos sofriam mais ainda do que as outras que os ignoravam. O mais perto que ela chegou de um processo foi quando foi intimada e obrigada a desistir do processo contra o capataz. 


                                                



Dá para entender o drama das mulheres muçulmanas que, ainda hoje, vivem numa sociedade que dá sempre e inteiramente a razão ao homem, mesmo quando ele arrasta a mulher pelos cabelos diante de todos. Lá ainda é pior, pois isso acontece ainda quando o homem a estupra ou mata.
                                              
                                                      Muçulmanas vendo seus direitos.

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