sexta-feira, 23 de dezembro de 2016












O trem foi sacolejando toda a noite, avançando na escuridão e nós num banco duro de madeira. Os bancos de trem eram feitos de ripas de madeira e aquilo funcionava como esses massageadores produzidos na China. 


Quando amanheceu chegamos a Santa Maria, tomamos um café com leite no restaurante da estação e aguardamos o próximo trem do trajeto. 
Tomamos café ou tomei café. Na verdade, não lembro se minha avó ingeriu qualquer coisa. Na véspera ela me levara a uma lanchonete e comi uma à la minuta, arroz, feijão, bife e batatas fritas.
Não a vi comer também dessa vez. Só me lembro dela ter almoçado ao meio dia, quando se deu outra troca de trem.
Chegamos numa estaçãozinha, parece que o nome era Cacequi, descemos carregando nossa bagagem, uma sacola, duas maletinhas, pouca coisa, mas pesadas, pois não existiam malas de rodinhas.
Dois soldados, dos que vinham no vagão e continuaram a viagem, um grande e outro bem mais baixo, mulatos, com capote e farda, se ofereceram para colocar nossos pertences no vagão que estava longe ainda. Apontaram para um bosquezinho cerrado a uns duzentos metros. 
Entregamos tudo a eles e passamos por um túnel para chegar ao restaurante, onde almoçamos descansadas, sem qualquer pressa, pois o intervalo da viagem era grande.
Quando voltamos à estação, não vimos ninguém. Completamente deserta. 
Do outro lado, virado em direção contrária, havia um trem. 
Minha avó olhou as janelas dos vagões e viu dois soldados mulatos, sentados lado a lado, metidos em capotes e de farda. Ela nem hesitou. Subiu no vagão e eu atrás. Foi ligeira até os primeiros bancos, segurou um dos soldados pela gola e ficou sacudindo-o e gritando: - Cadê as nossas malas? Cadê as nossa malas? 
Os dois não emitiram um som. Só olhavam para ela de olhos arregalados.
Nesse momento, o trem começou a se movimentar.
Eu a segurei pelo braço e implorei: - Vamos embora! Deixa! Temos que descer! Vamos!
Não sei como pulamos daquele trem, mas ficamos olhando, desoladas, enquanto ele ganhava velocidade e se ia em direção oposta à nossa.
Andamos para o outro lado da estação e ficamos olhando o vazio. Nem trem, nem bagagem, nem nada.
De repente, como se fosse um filme, lá do fundo do cenário, duas figuras foram se delineando e ganhando contornos. Dois soldados, um grande e outro menor, metidos em capotes verdes.
Chegando mais perto, sorriam.
- Já acomodamos a bagagem de vocês no vagão. É só esperar um pouco que já vai chegar.

Até hoje, aqueles dois soldados, que foram sacudidos por uma mulher louca gritando pela bagagem, devem estar se perguntando o que teria acontecido.







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