Por que as teses de mestrado e doutorado da FURG ignoram a história de Faustino Corrêa? Vou contar aqui um pouco do que sei.
É engraçado e estranho pensar que o tio de minha bisavó era o homem mais rico daqui do sul do Sul. Era dono de mais da metade do Rio Grande do Sul e do Uruguai.
Minha avó sempre dizia que a vó e a mãe falavam dos salões da casa da tia e de suas tesouras de ouro.
Minha bisavó contava que viviam na fazenda desse tio, mas depois as famílias brigaram não sei por quê. A briga deve ter sido feia, pois meu tataravô pegou a mulher e as filhas e veio - com uma mão na frente e outra atrás - para a cidade e nunca mais se falaram. Minha bisavó era Correa Simões, o que supõe que a mãe dela deveria ser irmã de Faustino.
Então cresci com as histórias da sobrinha, minha bisavó, sobre o tal tio rico.
Aqui colei história semelhante de outra sobrinha.
Minha bisavó contava que viviam na fazenda desse tio, mas depois as famílias brigaram não sei por quê. A briga deve ter sido feia, pois meu tataravô pegou a mulher e as filhas e veio - com uma mão na frente e outra atrás - para a cidade e nunca mais se falaram. Minha bisavó era Correa Simões, o que supõe que a mãe dela deveria ser irmã de Faustino.
Minha
avó era Simões Pereira, depois Pereira Fonseca e o nome Correa, assim
como o Pereira se perdeu quando minha mãe casou. Por isso, os reis e os
ricaços sempre queriam filhos homens para o nome não se perder.
Quanto
ao Pereira, meu bisavô era Pereira Alonso, mas na Espanha vem primeiro o
nome do pai e assim, no Brasil, seu sobrenome seria Alonso Pereira e
foi o adotado pela família.
E pesquisando sobre o comendador, descobri que tenho ascendência portuguesa também, pois os pais dele vieram de Portugal. Devo ter uma percentagem igual a álcool em cerveja que passou por desalcoolização: 0,0001.
Esse comendador também não era um santo. Contava minha bisavó que estavam em uma tarde, após o almoço, apanhando sol na varanda da fazenda e ao longe surgiu um negro caminhando pelo campo. Faustino fez sinal ao seu capitão-do-mato e disse: "Negro perdido por aqui só pode ser fujão. Vai lá e resolve"! O homem foi, levou o negro para longe e zás! -resolveu o problema.
Então cresci com as histórias da sobrinha, minha bisavó, sobre o tal tio rico.
Aqui colei história semelhante de outra sobrinha.
...mas sua sobrinha, Soledad Franco de Pitarri, filha de sua irmã Belizaida, diz que, quando era criança,escutava histórias a respeito de uma grande fortuna que sua família teria no Brasil.
E mais uma sobrinha:
...ele se acostumou a ouvir, na meninice, as histórias contadas por sua mãe, Josefina Correa, a respeito da fortuna do comendador.
E mais uma sobrinha:
...ele se acostumou a ouvir, na meninice, as histórias contadas por sua mãe, Josefina Correa, a respeito da fortuna do comendador.
Ao assinar o testamento, o comendador que não possuía filhos, deixou uma carta de alforria, a todos os escravos e designou que 14 "crias" fizessem uso e fruto da propriedade em que vivia. Somente depois é que sua fortuna poderia ser dividida aos descendentes de seus irmãos.
...sua fortuna eleva-se a um trilhão de cruzeiros, incluindo a cidade de Santa Isabel, 80% da cidade de Pelotas, ruas, quarteirões e terrenos na cidade de Rio Grande, 53 fazendas somente no Uruguai, além de terras localizadas no interior de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Muitos dos bens foram confiscados durante o governo de Getúlio Vargas, inclusive o ouro depositado no Banco do Brasil. Faustino não pensou que fossem surgir tantas pessoas ligadas à sua família, interessadas em obter uma parte de sua fortuna formada no Rio Grande do Sul, especificamente na cidade de Rio Grande.
Como dá para perceber, havia muitas famílias contando histórias de comendador.
Saiu no jornal, o seguinte:
Em jogo uma bolada de quatro milhões de dólares. Quem for Corrêa que se habilite. Chegou a sua hora de posar de Onassis.
Em jogo uma bolada de quatro milhões de dólares. Quem for Corrêa que se habilite. Chegou a sua hora de posar de Onassis.
Loucura total.
Comendador Faustino Corrêa
Domingos foi um comendador da Ordem
de Cristo, no Brasil Imperial, recebeu o título de Dom Pedro II em 10 de
outubro de 1827, pelo motivo de ter abastecido as tropas brasileiras durante
Guerra do Paraguai. Domingos nasceu em Portugal, no dia 4 de setembro de 1790, e
faleceu no Rio Grande do Sul, em 1873. Toda esta confusão se deu devido a seu
testamento confuso onde o próprio comendador escreve:“Em nome de
Deus, eu Comendador Domingos Faustino Corrêa, achando-me em pleno gozo das
minhas faculdades intelectuais resolvi dispôr para depois da minha morte dos
bens que possuo da forma seguinte: Que nasci e fui baptizado na freguesia de
Tahim e sou filho legítimo do Senhor Francisco Corrêa e de sua esposa D. Isabel
Brum Corrêa e ambos já falecidos à anos, e que fui casado com a Senhora D.
Leonor Maria Corrêa (...). Os bens que me pertencerem e tiverem ao tempo da
minha morte distribuam-se da seguinte maneira: Deixo libertos todos os meus
escravos,,,//
E aí vem uma lista de pardinhos (a denominação é dele), uns quinze filhos, pois parece que o homem era dado a pular a cerca. Deixou a fazenda para os escravos, com a cláusula de que seria devolvida ao se completarem cem anos de sua morte, quando então seria aberto o testamento e os bens partilhados aos herdeiros. Só que, ao fazer isso, ele não teve muita visão do futuro.
O testamento do século foi aberto finalmente, mas minha bisavó, minha avó e tia Eme já não existiam
Aos herdeiros caberia um legado que inclui, entre outras coisas, quase todas as terras onde hoje se localiza a cidade de Pelotas, grande parte das capitais do Rio Grande do Sul e de São Paulo, muitos hectares no Uruguai, e imensa área de terras na fronteira. Há ainda um casarão em Porto Alegre, com muitos inquilinos que, ironicamente, tem o sobrenome Corrêa..
Cerca de 20 mil brasileiros, uruguaios e bolivianos estão entre os prováveis herdeiros da fortuna avaliada em muitos milhões de dólares.
No
jornal O Estado de São Paulo, 6 de fevereiro de 1982, traz uma reportagem sobre
o mais longo processo do judiciário brasileiro, que levou 108 anos para ter uma
resolução. O processo é sobre a herança do comendador Domingos Faustino Correa.(copiado do google).
Ruínas de Santa IzabelO testamento do século foi aberto finalmente, mas minha bisavó, minha avó e tia Eme já não existiam
Aos herdeiros caberia um legado que inclui, entre outras coisas, quase todas as terras onde hoje se localiza a cidade de Pelotas, grande parte das capitais do Rio Grande do Sul e de São Paulo, muitos hectares no Uruguai, e imensa área de terras na fronteira. Há ainda um casarão em Porto Alegre, com muitos inquilinos que, ironicamente, tem o sobrenome Corrêa..
Cerca de 20 mil brasileiros, uruguaios e bolivianos estão entre os prováveis herdeiros da fortuna avaliada em muitos milhões de dólares.
Nem uma tesoura de ouro para os irmãos ou irmãs. O testamento continha a cláusula de que, após cem anos, as terras seriam devolvidas e os herdeiros poderiam receber a herança. Uma absoluta falta de previsão de mudança de leis e governos e também da explosão demográfica.
Minha avó contava que ela e a irmã passaram a infância indo ao foro acompanhando a mãe buscando reverter o tal testamento.
Minha avó contava que ela e a irmã passaram a infância indo ao foro acompanhando a mãe buscando reverter o tal testamento.
Passei minha infância e juventude escutando esse assunto em casa. Um dia, já casada, meu marido chegou comentando que a frente do foro estava tomada por uma multidão porque estava sendo aberto o testamento de um tal Faustino Correa. Levei um susto. Hein?! Mas esse era o tio de minha bisavó! O que uma multidão tinha a ver com tal abertura? Não é que o homem que não teve filhos conseguiu se multiplicar em quase 50 mil descendentes. Todo mundo se intitulava herdeiro!
Imaginem se não houvesse ninguém, se estivessem procurando herdeiros, se eu sozinha me apresentasse com minha irmã, imaginem que não mudaria nada, pois as terras do homem hoje são cidades e vilas e povoados e ninguém vai mexer nisso, não. Ademais já tinha prescrito o prazo para qualquer reivindicação.
Minha mãe ficou absurdamente feliz. Um advogado, seu conhecido, disse que poderia fazer o processo para que ela fosse habilitada entre os que reclamavam a herança. Ela foi atrás, andou e andou. Conseguiu um pouco no bispado, outro pouco no cemitério, compor os fios e entregar toda a papelada para o advogado.
Na verdade, 2.600 se habilitaram. À lista completa não tive acesso, mas achei a habilitação de minha mãe para a herança e a certidão de nascimento dela, onde consta o nome da avó, sobrinha de Faustino.
Na verdade, 2.600 se habilitaram. À lista completa não tive acesso, mas achei a habilitação de minha mãe para a herança e a certidão de nascimento dela, onde consta o nome da avó, sobrinha de Faustino.
Todos os supostos herdeiros, mais de
50 mil em diversos países, como o Brasil, a Argentina, Uruguai, Paraguai,
Estados Unidos e até Europa esperavam receber alguma parte dos 3 trilhões de
cruzeiros que teriam sidos deixados pelo comendador. O processo foi composto de
1.250 volumes, 500 mil folhas e mais de 360 advogados estiveram envolvidos no
processo. Foram dadas mais de dez sentenças, e é considerado o mais longo
processo do judiciário brasileiro. O desfecho disso tudo foi dado pelo juiz, que
encerrou o caso e ninguém recebeu nada, pois foi extinto o prazo de partilha de
bens do comendador para terceiros. Os bens fora do Brasil, uma fazenda na República
do Uruguai de 600 mil hectares, ficavam fora da jurisdição do poder judiciário,
e não existia base legal para a partilha da mesma, todos os herdeiros ficaram
de mãos abanando.
Trilhões de cruzeiros não significam nada, mas houve uma avaliação de alguns milhões de dólares na época.
....a sentença final, que não veio e nem virá, foi tolhida pela inexorável decisão do tempo, mais poderoso que a vontade dos homens.
Por isso nunca menciono que sou herdeira de Faustino Corrêa.
A história da herança e dos herdeiros virou uma lenda.



Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirParabéns pelo texto. Muito interessante!
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