Uma vez meu pai arrendou uma chácara. Viveu como plantador um ano inteirinho, curvado sobre a terra, arando canteiros. Ficou tudo plantado, verdinho, lindo. Ficava na rua em que, do outro lado, era a lagoa. Veio uma enchente e lá se foi tudo por água abaixo.

Então ele voltou para os móveis, que, diga-se a verdade, era o que ele sabia mesmo fazer.
Mas era um sonhador, achando sempre que a fortuna estava logo ali. O pote de ouro no final do arco-íris sem perceber que ela estava em suas mãos.
Nas aventuras nas noites escuras que tive com minha mãe, houve a noite da tropa de bois.
Ela costumava costurar durante todo o dia e quando a luz ia se indo, saía comigo para fazer as entregas. Muitas vezes se demorava a conversar, pois tinha sempre muitos assuntos.
Vínhamos andando tranquilamente lá por umas 23 horas e, de repente, o chão pareceu se mover e um barulhão nos atingiu. Vimos na escuridão as sombras tapando a rua e minha mãe se deu conta de que era o gado sendo conduzido ao frigorífico. Ele era tangido do outro extremo da cidade para o matadouro em determinadas noites. Vinham velozes e só se ouvia o bater dos cascos num barulho cada vez mais forte e os vultos cada vez mais próximos. Não havia tempo nem para onde fugir. Íamos ser massacradas.
Isso correndo na escuridão da noite em nossa direção. Assustador ou não?
Minha mãe vislumbrou a alguns metros um muro de uns sessenta centímetros de altura sem portão. Corremos e nos encolhemos ali atrás e ficamos vendo, pela abertura, os bois passando loucamente rápidos durante muitos minutos. Suas patas quase encostadas às nossas cabeças. Nosso medo era enorme de que algum daqueles bois saísse do alinhamento e entrasse na abertura do muro ao nosso lado. Se pulasse o muro...se nos visse e nos atacasse...Se...
Afinal passou e o barulho se perdeu na distância.
Bois correndo para a morte.
Mas nós a vimos passar bem perto.


Nenhum comentário:
Postar um comentário