Minha mãe sempre dizia que queria ter uma filha professora porque ninguém fica cumprimentando:
- Oi, secretária!
Mas nunca deixam de dizer:
- Oi, professora!
Minha mãe tinha umas ideias engraçadas.
Estava sempre inventando coisas para ganhar dinheiro. Bolos, pães, costuras, artigos de Páscoa, coroa de finados. A nossa casa se enchia de cheiros que variavam com a ocasião. Alguém procurava um bolo de casamento? Sim, ela fazia bolos de casamento.
Uma vez fez um tão grande que não saiu pela porta. Felizmente, a janela não tinha grade e o tabuleiro enorme conseguiu passar e ser seguro por homens com os braços estendidos, pois a casa era alta. Desajeitados, deixaram cair uma parte da encomenda a poucas horas da festa. Carregaram minha mãe junto para consertar e lá foi ela aboletada na caminhonete, segurando a preciosidade em risco. Nunca vi uma pessoa mais disposta a enfrentar as adversidades com serenidade e sorriso. E foram muitas adversidades. Um verdadeiro rosário.Nos finados, o cheiro na casa era de parafina. Ela fazia flores de papel crepom, ia mergulhando as flores na parafina que fervia no fogão, para entrelaçá-las num arame enrolado e formar as grinaldas. Então colocava uma banquinha na frente do cemitério e vendia tudo. Ainda bem, porque aquelas sobras a gente não queria em casa.
Ao contrário das sobras da banquinha do carnaval. Pois é. No carnaval, meu pai pagava a licença para ocupar uma das banquinhas na praça onde ocorriam os desfiles. Num ano, choveu a semana inteira - naquele tempo, o carnaval durava religiosamente uma semana - e nós estufamos de tanto bolinho, pãozinho, salsicha, bauru, doce.

Vinha a Páscoa e minha mãe confeccionava casinhas, ovos, cestinhas, tudo de açúcar. Estendia para secar ao sol, depois enrolava em celofane e às vezes varava as noites nesse trabalho. Meu pai ajudava e eu também, quando não tinha tarefas da escola. Nessa época, ela arregimentava uma legião de vendedores e havia sempre gente entrando e saindo lá de casa. Com isso, ela fazia muitas amizades e podia exercer outra faceta de sua personalidade: dar conselhos.
Gente entrando lá em casa.
Dor de alma, ela conhecia todas, mesmo sem nunca tê-las sofrido. Sempre tinha uma palavra mágica para o apaixonado ou apaixonada sofredores. Vi homens e mulheres chorando. Vi enredos dramáticos se desenrolando em nossa sala. As pessoas vinham de longe só para conversar e ouvir algumas palavras de consolo. Não tenho esse dom. Meu pai era calado e saí a ele.
Eu ouvindo conselhos.
Se eu nem sabia ouvir, dar conselhos muito menos.




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