Tenho algum pavor intrínseco com animais de chifre.
Ia bem cedo para a escola. Havia uma chácara em frente à minha casa, que ocupava toda a quadra e era cercada por taquaras de mais de dois metros, colocadas uma ao lado da outra e em camadas, de modo que ficava totalmente fechada. Eu atravessava na esquina para a rua da escola, por uma passagem larga que tinha de um lado essa chácara e do outro duas ou três casas, sempre fechadas àquela hora. Às vezes havia alguns animais, cavalos ou vacas, pastando ali. Eu nunca me preocupei com eles e eles nunca se preocuparam comigo.
Mas, numa manhã, um boi enorme, preto, lá no meio da quadra, ergueu a cabeça quando surgi na esquina e ficou me olhando. E eu olhando pra ele, parada. Depois de alguns minutos, me movi para o lado das casas e ele foi me acompanhando, sempre com o olhar fixo em mim e se movendo sem avançar, mas exatamente na direção em que eu me movia. Voltei para o lado da chácara lentamente e o bicho voltou também me olhando. Esse vai pra lá e vem pra cá prosseguiu por umas três ou quatro vezes. Até hoje tenho aquela visão apavorante e nítida.
Mesmo tendo consciência de que iria perder um tempo enorme, voltei e contornei a chácara.
Quando passei, após fazer esse contorno, pela esquina do outro lado. o animal estava no mesmo lugar, ainda talvez esperando que eu fosse reaparecer.
Não chamei ninguém, não voltei em casa, não pedi nem esperei ajuda.
Eu seria uma criança corajosa, determinada, capaz de procurar resolver sozinha meus problemas?
Ou inconsciente?
Ainda hoje tenho na memória a visão nítida de um animal igual a esse decidido a, no mínimo, não me deixar passar.

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