quinta-feira, 1 de dezembro de 2016







As irmãs

Irmãs, mesmo gêmeas, tem personalidades diferentes, gostos diferentes, destinos diferentes.
Não era o caso de tia Eme e a irmã que trilharam o caminho até a juventude juntas, mas não eram gêmeas e tinham mesmo um ano de diferença na idade.
Minha avó casou aos vinte anos com meu avô, que era vinte anos mais velho do que ela e viúvo.
Casou para se livrar da fábrica.
Ela sempre disse que era uma pessoa triste. Que aos sete anos deixou de ter alegria e tinha ficado assim, fechada e sombria.
Eu acho que ela foi a pessoa mais infeliz que conheci. E com razão.
Teve nove filhos e só criou a minha mãe. Dizia que todos os anos tinha velório de uma criança em casa.
Contava que os nenês nasciam lindos, iam desenvolvendo bem,  até cerca de um ano. Aí dava uma doença qualquer, chamavam o médico, mas não adiantava.
Então, ela fechava a casa, sentava a chorar até nascer outro filho e o ciclo se repetir.
Minha mãe contava que se criou numa casa escura com a mãe sempre chorando.
Minha avó adotou outras crianças, mas com todas acontecia a mesma coisa.
Só criou minha mãe e um menino que foi adotado aos quatro anos.



Minha avó também fazia crochê, mas só coisas simples. Vivia com a linha e a agulha de crochê, fazendo guardanapinhos que nunca usava.

                                               Eram assim os guardanapos de minha avó.


Um dia ela foi visitar uma conhecida. Faziam-se muitas visitas naqueles tempos. Viu um menininho esquálido, com grandes olhos azuis num rostinho magro. Contaram-lhe que o pai e a mãe tinham se separado e a avó ficara com o neto, mas que não ligava muito para a criança. Ela perguntou para ele se queria ir para a casa dela e ele disse que sim.
Ela o levou e às vezes o pai aparecia para vê-lo. 
Uma tarde, apareceu e ficou muito tempo a abraçar o filho e beijá-lo. Depois se ergueu e saiu com uma expressão triste.
Contam que quando encontrou a mãe do menino, passou-lhe a navalha no pescoço e saiu andando, tomando uns goles de uma garrafinha que tirou do bolso. Andou umas quadras e começou a cambalear. Dois guardas, que estavam parados numa esquina, comentaram: - Ih! Aquele ali vem num porre que nem se aguenta em pé. Foi quando o viram pegar a navalha e passar no pescoço.
Tinha tomado veneno e completado a loucura com a navalha. A mulher sobreviveu e desapareceu. Nunca mais ouviram falar nela.
Passaram-se os anos e, quando o menino estava com onze anos, alguém lhe disse na rua que ele era adotado. Revoltado ele chegou em casa gritando, chorando e repetindo que não, que não era adotado, que adotada era minha mãe, pois ele tinha até olhos azuis como meu avô.
De qualquer forma, foi a única vez que isso o abalou.
Quando, depois de já casado e com filhos moços, apareceu uma irmã e começou a visitar sua casa frequentemente, ele confessou para minha mãe: -É estranho! Minha família são vocês. Minha irmã és tu.
Algo a considerar sobre adoção. Ser ou não do sangue não é o importante, mas o carinho e amor que a criança recebe para apagar o que ela deixou para trás.





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