quinta-feira, 8 de dezembro de 2016





Meu pai era incrível. Criado no campo, em lugar ignorado, foi mal alfabetizado.Veio para a cidade não sei quando, mas desconfio que foi depois dos quinze anos. Aprendeu marcenaria, dizia ele que no Senai. Tornou-se o melhor marceneiro de quem já tive notícias. Fazia móveis complicados por catálogo. Seus clientes constituíam a nata da sociedade local. O capricho, exatidão, paciência, tenacidade, faziam com que aquelas pessoas não o largassem. Nem mesmo quando fechou a oficina e resolveu ser feirante vendendo bolachas sofisticadas, das quais nos empanturrávamos após o almoço, a janta e o café da tarde. Como as pessoas continuavam a ir atrás dele, para que lhes fizesse móveis, nossa sala passou de depósito de latas de bolacha a oficina de móveis. A dificuldade às vezes era para receber o pagamento.Entregava os móveis e a pessoa ia para a Europa, só se aborrecendo com as dívidas que ficavam para trás, quando já estava de volta.

                                              Nossa sala se transformou numa marcenaria.
                                     


Ele aprendeu a tocar clarineta não sei quando nem onde.Todas as noites, sentava na beira da cama, prendia as partituras no suporte e ficava tocando. Participava de uma banda e saía com sua clarineta também nos cordões de carnaval.Não sei que fim levou o instrumento, pois nos últimos anos não tocava mais.


                                             Uma clarineta é tocada com essa pose.



Um dia comprou uma moto, desmanchou-a toda, botou as peças de molho no querosene, montou de novo e a moto andou. Minha mãe lhe fez uma jaqueta de couro. Lembro dele com uma faquinha desbastando as beiras para facilitar a costura. Nós saíamos pelas estradas.

Minha mãe na garupa e eu no tanque. sentindo o vento no rosto, o asfalto uma linha escura a ser engolida e as árvores correndo ligeiras para trás. Naquele tempo não havia fiscalização. proibição, postos rodoviários e quase nenhum trânsito. Era possível saborear sem susto ou culpa toda a liberdade. Acho que não há nada nos dias de hoje que possa substituir essa sensação maravilhosa.

                                                           Eu me sentia voando.

Ele participava de corridas de motos. Levantamos cedo um dia e nos aboletamos num ônibus, eu e minha mãe, cheio de acompanhantes dos motociclistas. Minha mãe fez uma boa quantidade de balas de café e outras coisas - porque ela sempre carregava uma fartura de lanches nessas ocasiões.
Quando chegamos ao local da corrida, meu pai chegou com uma mulher na garupa. Ela tinha o rosto todo lanhado. Ficamos sabendo que o marido se acidentara no caminho. Não sei o que aconteceu com o homem, mas lembro que na volta tive que dar o meu lugar para a mulher. Minha mãe sempre nos ensinava a ceder o lugar e a carregar os papéis de bala e outras coisas para jogar no lixo de casa.
Daquele dia fiquei com a imagem de um lugar poeirento que devia ser um hipódromo, homens de motocicleta com jaquetas de couro pretas, muita agitação, uma mulher de rosto redondo todo esfolado e sujo e um sabor gostoso de bala de café.

                                                               

Das motos, meu pai passou para a caminhonetes. Comprava, ficavam paradas um tempão, ele desmanchava o motor, botava tudo no querosene, montava de novo e a coisa andava.

                                                Meu pai pegava uma caminhonete assim

                                             ... e deixava assim ( ou quase).
Não contente em comprar velhas caminhonetes, ele resolveu fazer a carroceria inteira e comprar só motor e chassis. Nós apelidamos a primeira de cristaleira, porque era muito engraçada. Fechada, quadradinha, com vidros de correr nas janelas. Pintada de verde com vermelho, é a lembrança mais ridícula da minha infância. Apesar de tudo, a coisa andava. Carregava as mercadorias para a feira e a família para a praia.

                                                       Caminhonetes de madeira













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